"Sabe o que é? Nunca procurei respostas. As perguntas, elas sim, me incomodam: ressoam, reverberam, ricocheteiam. É tipo um masoquismo da dúvida."




segunda-feira, 20 de junho de 2011

Actus regit tempum

Vivemos uma época de inversoes. Nao me tomem por conservador, nao é nada disso. "Inverter "deixou os lábios de velhos monarquistas, ufanistas, machistas ou bajuladores da moral, da ditadura e dos bons costumes, para estar aqui, nestas linhas. Verter tem toda uma fluidez, e inverter, por consequencia. Já dizia o Bauman, a modernidade é líquida, tudo é volátil, da família ao carro, do amor ao ódio. Este período que relato, nao sei quanto tem de semelhante às épocas que se foram. Claro, algum entendido, experiente, dirá que certas coisas existem desde que o mundo é mundo, e se o entendido for conservador como o velho ufanista das primeiras linhas, dirá que nada há que possa fazer para mudar tal condicao. Mentira! Se há um aspecto que posso gabar é essa condicao de humano. Que olhou para isso de natureza, essa montoeira de recursos, e comecou a inventar necessidades, e também problemas, estes últimos que resultavam de necessidades/desejos nao atendidos. A relacao economicista de escassez de recursos é real, e de resto, as necessidades que se objetivam para além da materialidade, acabam sendo em muito resultado da organizacao desses recursos, sua distribuicao, producao e circulacao. "Amor", por exemplo, para além de sentimentozinho ambientado, circunstanciado, musicado, jantarzinhado, hormonizado, viagenzado, é pouco, mas é muito. Gabar da condicao humana é sensato porque, diante desses desafios, pode propor inversoes. Amor nao é um só, mas sao vários, família passa a ter muitas facetas, conhecimento torna-se um pedaco sem chao na velocidade de máquinas, redes e informacoes.

Nao sei ao certo porque cheguei neste ponto. Minha intencao, ao iniciar este pequeno texto, era de falar como que cifras tao altas (e ao mesmo tempo tao instáveis, diante de extermínios fatalistas e inchacos de problemas) podem banalizar tanto a acao humana. A frase, título do texto é uma inversao. Uma daquelas latinices que aprendi no curso de Direito. "Tempus regit actum", diziam já os antigos, para que a lei nao retroagisse e punisse ilícitos que, à época que foram cometidos, nao o eram. A inversao é proposital, como qualquer inversao. A forca dos homens está nisso, a capacidade de inverter (ou subverter) condicoes. Inverti a frase (trocando o sujeito pelo objeto, e espero, com a devida declinacao que aprendi nas aulas de latim que tive) porque quis, e também porque é o que observo: seres invertidos por sua própria acao.

Os atos passaram a reger o tempo. Tempo, isso sempre me incomodou, um conceito puro, decisivo sobre a relacao que temos uns com os outros: isto é passado, isto é ruim, isto já era, isto eu espero, isto nós confiamos que será assim, isto é agora, istó já nao é de hoje... Uma série infinita de necessidades colocadas em relacao com o tal tempo. Pois bem, que tempo é esse, conceito puro, apriorístico, que cada dia se vê mais e mais liquefeito? As pessoas nao o tem. Nao há tempo para os homens, se a acao deles é uma só: a de se mover agindo na esteira produtiva, a de fazer para poder ter, para ter, para que mais facam, e mais possam querer e ter...O tempo se torna, afinal, uma grande engrenagem de acoes, que se medem, se organizam, e infelizmente, nada ou quase nada transformam. Claro que transformam o espaco numa cadeia de utilizacao de recursos e invencoes mirabolantes para que novos recursos sejam utilizados...Mas essa transformacao, por si só, é frágil, se sustenta numa esperanca de equilíbrio, que jamais virá (nao há recursos suficientes para o grandioso desejo de autodeterminacao por bens), o que provoca iniquidades, desigualdades sem fim, divisoes e ódios irascíveis mesmo nas mais pacíficas sociedades. A transformacao fica fragilizada pelo que oferece: nao é possível garantir que os detentores de recursos eternamente comprem, produzam e mais queiram, e que setores desses recursos possam ganhar com especulacoes infinitamente...Nao há espaco para isso, nem tempo. O homem rasgado pelo seu tempo médio, ao mesmo tempo excessivo na terra, é jogado à margem de sua condicao pelo conceito de "utilidade". O trabalho que é útil, afinal, para a vida sem tempo, é aquele que o mantém sem tempo, na ordem da esteira, maquinizado, na vida sem tempo. Quando há tempo para alguns, nao se é mais útil.

terça-feira, 24 de maio de 2011

Dívida pública para o público



A dívida pública elevada é ruim pra qualquer governo, seja ele orientado pelos meandros de terceira via, de neoliberaloide ou do que quer que seja. Por um simples motivo: a dívida pública onera a população como um todo, especialmente as gerações futuras: toda dívida vence, toda dívida (ou quase isso) deve ser quitada, é princípio básico de direito e da economia. Pois bem, e onera em dois sentidos: um positivo, que significa aumento futuro de tributos, outro, negativo, através de enxugamentos orçamentários com gastos sociais, desenvolvimento de políticas públicas, etc.

A curto prazo, pensando em soluções para o desenvolvimento de economias estagnadas, talvez o endividamento público possa parecer a melhor solução: foi o que vivenciamos aqui na américa latina especialmente no século passado né? Criar condições para o desenvolvimento, para que se possa falar em investimento, geração de poupança nacional, equilíbrio fiscal, maior crescimento econômico futuro e etceteras. 

E vamos combinar, fundos de reserva existem, a crise de 2008 prova isso: há crédito a ser concedido, seja para bancos ("salvos" em operações milagrosas), seja para governos. Estes segundos, no entanto, costumam ser péssimos pagadores, sujeitos aos refluxos de suas economias e das economias do resto do mundo (pois é impossível se pensar apenas em mercados produtivos e de consumo dentro das fronteiras nacionais), às mudanças de governo e de orientações econômicas,...

Enfim, penso que é o velho problema desse "paradigma" (com o perdão da palavra) de modo de produção capitalista que enfrentamos: o Estado deve ser forte, o que não significa um Estado grande. Forte o bastante para intervir nos momentos de crise, mas não só, garantir o investimento, e o desenvolvimento, a organização da sociedade civil, a livre-iniciativa, etc.

A Uniao Europeia tem adotado políticas ortodoxas de ajuste orçamentário, por conta de um cenário já desanimador...Resumindo, está pensando em custos não só presentes, mas também futuros, de possíveis dependências externas e endividamentos. O problema é saber até que ponto isso se justifica, com níveis de desemprego na casa das dezenas percentuais.

Que decisao, com relacao ao endividamento nacional, tomará o povo da Espanha? Pelo visto, com o enfraquecimento do PSOE e o fortalecimento do PP espanhol, o cenário é um tanto voltado à ortodoxia neoliberal. Veremos...

 

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Educacao revolucionária para quem, cara pálida?

A sociedade da informacao como a propulsora de (outras) velozes transformacoes do capitalismo. As linhas fordistas, a producao em série, os milhoes e milhoes de bens a serem consumidos e produzidos, já sabiam muitos, seriam quase todos feitos por máquinas. Nao se trata de ajustes apenas adequados às necessidades crescentes, porque aqui nao se trata de pensar as relacoes de mercado como a teoria de Malthus sobre crescimento populacional e demanda de alimentos em proporcoes geométricas, e producao dos mesmos em proporcao aritmética. Isso é pouco, o século XXI demonstra que crescemos cada vez menos, e estamos cada vez mais diante de problemas já gigantescos. Trata-se de eleger um modelo dos criadores, inventores, descobridores. Pois estes inventarao novas tecnologias, suplantarao modelos para o consumo e assim deixarao que as máquinas trabalhem com a producao mecânica, fordista, com as esteiras. Até o dia em que a inteligência artificial provoque uma ruptura dessa relacao de subordinacao entre máquinas e homens.

Terrorismo digital à parte, a revolucao pela via educacional parece ser uma bandeira muito bonita, comprada por um amplo espectro político, das extremas esquerda e direita, até os adeptos de terceiras vias, liberalismos e conservadorismos. Fato é: a "revolucao" pela educacao, enquanto política pública, assumiu a forma mais desejável ao capitalismo que substitui o braco pelos cérebros, o suor por dedos irriquietos que digitam, escrevem, calculam. Somente uma populacao devidamente instruída, e nao somente instruída como o modelo liberal de educacao fez exigir - o amplo acesso ao ensino básico, mas instruída e apta a conduzir aportes, inovacoes, pensar cientificamente. A educacao, enfim, para o desenvolvimento.

Pergunta-se: um modelo que atende à substituicao progressiva de seres humanos por capital humano. Pessoas que pensam, por pessoas que produzem pensamento, que por sua vez materializa-se em produtos novos, solucoes novas, a serem vendidas, comercializadas, liquidificadas na modernidade tardia. Nao se trata aqui de condenar cérebros inventivos. Pelo contrário: devem sim ser estimulados! Nao devem é ser estimulados, contudo, seguindo apenas uma lógica agrilhoante, de cadeias, desenvolvida para a sociedade de consumo. 

É esse o modelo que critico, e que parece ser cada dia mais e mais estimulado: a caca aos estudos universitários, a sanha por diplomas-resultados, a procura irriquieta de homens por sobrevidas que nao se deparam com o estimulante desafio do conhecimento. Acabam contornando-o, vendo-o quando muito de relance. E os gênios, os inventivos, criativos, se perdem e sao evidentemente menorizados, desmerecidos - se comparam aos gênios das Mil e Uma Noites: sao escravos! Nao detentores de lâmpadas, mas escravizados por producoes, por lattes repletos, por produtos finais de pesquisas, esquecendo de um compromisso, anterior a qualquer invento: com a sociedade que o envolve, com o bem-estar dessas pessoas mesmas, com os rumos que classes dirigentes conferem à mesma sociedade. É o mínimo a se esperar. 

Portanto, sempre me pareceu muito clara a necessidade de desenvolver ensinos básico e fundamental nao só estimuladores de conhecimento, mas sobretudo atentos às transformacoes de comunidade em nível local, às integracoes regionais de comunidades, aos desafios e problemas sociais nacionais e também internacionais. É dizer, desenvolver mecanismos de entendimento do que seja cidadania, participacao popular, sociedade civil, governo, instituicoes e direitos. Pedir mais do que pode fazer um professor da rede escolar, já repleto de encargos e ridicularizado com seus breves ganhos? SIM! É exigir um modelo de educacao para além das obviedades que exige as transformacoes da sociedade de informacao. A verdadeira revolucao pela educacao comeca com o desafio de mais horas na escola (e também na universidade), e mais estímulo e fomento nao a cérebros escravizados, mas a cérebros de cidadaos livres e  sobretudo socialmente responsáveis.

sábado, 15 de janeiro de 2011

Fantasma

Acreditar? Não, não acredito. Porém, as constatações da vida crua urbana me levam a afirmar o contrário. Um fantasma é uma imagem não correspondente à realidade. Uma infinidade de imagens não correspondem à realidade, porque "realidade" acabou se tornando, nos nossos dias, um pretexto de tédio, ordem, logicidade, normalidade. Os processos racionais e os processos industriais tragaram a subjetividade humana. Os que a tais processos não se renderam, acabaram sendo taxados de loucos, desvairados. 

Um fantasma é, na origem do termo, um mostrar, uma aparição. Aparição apagada, como disse, por processos cadenciais, logicizantes. Um fantasma é, portanto, o que tendemos a negar, o que nos torna mais humanos: nossa capacidade de negar, criar vias alternativas, conduzir-nos através do que concebemos como esfera subjetiva. 

Terminal Rodoviário do Tietê. Cinco e dez da tarde. Sem muito mais o que fazer, tendo circuncaminhado pra lá e pra cá, bebido todas as águas posíveis, comido e até mesmo escovado os dentes, resolvi me acomodar em uma cadeirinha qualquer, e abrir minha aquisição mais nova: Sermões, do Padre Vieira. Sabia que não conseguiria ler muito ali, mas passatempo melhor que leitura, acho que não existe. Li algumas páginas, sem perceber muito bem quem estava ao meu redor. Havia umas jovens, comendo e conversando. Continuei a ler. Voltei meu olhar melhor. Eram umas jovens, cabelos lisos, com sacolas de compras e bem vestidas, tomando sorvete. "Ah, coisa nada nova", pensei. Continuei minha leitura, agora estranhando o relativo silêncio. Elas tinham ido embora. Pensei: "ah, enfim, paz". Outra conversa começara. Não pude deixar de não prestar atenção: "Essa situação no Rio de Janeiro está terrível, essas favelas foram tomadas, daqui a pouco vão adentrar com tanques nelas, é terrível, isso tudo é culpa da Dilma, terrorista, você já viu? A bandeira do PT é vermelha, o PT é aliado do Comando Vermelho, sabe o PCC? Pois é. Ela está fazendo isso, vai matar todo mundo e controlar tudo". Era um senhor de meia-idade, conversando com a senhora sentada ao meu lado. Eu apenas balançava a cabeça e ria dessa metralhadora de asneiras. A senhora, já cansada de tanta besteira, voltou-se a mim: "Que está lendo aí, filho?" Disse: "Antônio Vieira, Sermões."

- Ah, ele era baiano, né?

-Na verdade, português. Mas veio pro Brasil e morou na Bahia durante muito tempo. Então é baiano de coração.

-Está vendo, não te disse? 

E foi com essa conversa que ela foi se desconversando com o sujeito, que se despediu. Era uma velha de uns oitenta anos, negra, cabelos todos tomados de brancura e presos com grampos. Um vestido surrado, um tanto maltrapilha, e com uma mala de rodinhas, e sacolas atadas por todos os cantos. Carregava uma sacola de feira também. Cara no entanto atenta, uma expressão cambiante, entre severidade e serenidade.

-Sou espírita sabe meu filho? Minha avó era francesa, meu pai, africano. A África, tem caldeirão lá, magia negra. Nasci na Bahia, mas vim cedo pro sul. Aprendi e estudei muito, equações e termodinâmica. 

-Ah sim.

- Sabe o que é um ovo de Colombo?

-Sei sim, é um ovo que pára em pé. 

-E sabe como fazer isso?

- Não. 

-Ah, mas você tem de perceber que existem vários tipos de ovos, né. De galinha, de pato, de codorna...Só te digo isso..

-Hum...

-Sabe, meu filho, essas mulheres brancas aí, são todas filhas, frutos do tráfico de drogas.Metidas com drogas, que financiam essas roupas e compras. E sabe o que mais? Essas criancinhas aí, todas mascando chiclete, é tudo maconha, eles poem no chiclete delas para as viciarem desde cedo, mascando e mascando. Aliás, esse senhor que estava conversando comigo, traficante. Ainda bem que não acreditei em nada do que ele me disse. 

Respirei aliviado e comecei a depositar mais confianca na conversa. Não que fosse esperar lógica ou sentido nela, mas iria continuar a me distrair um bocado...Falou de plasma sangüíneo, de mulheres na política, de Margareth Thatcher, de Dilma Rousseff, e de outras coisas. Disse que quando chegava seis horas ali em São Paulo, Iansã vinha devagar, mansa, ocupando todo o espaço da rodoviária, numa imensidão gelada. Durante a conversa eu batia cadenciadamente minha mão esquerda numa mesinha lateral. Ela me repreendeu e advertiu, com aqueles olhos azuis arregalados, que eu não devia fazer aquilo, que chamava Exu. Tentei quebrar aquela situação, que ficou um pouco desconfortável:

-E de onde a senhora vem?

-Sou de todos os lugares e de lugar nenhum. Vou ao Rio de Janeiro, pego meu onibus às seis e meia, tenho uma missão por lá. Viajo sempre pelo Brasil, sabe filho, mas nunca saio das rodoviárias. Tem muita energia ruim por aí, sabe? 

Ao longo da conversa, retirava de suas sacolas mais sacolas, e de dentro delas outras sacolas, e papéis embrulhados. E de dentro dos papéis, mais papéis. E um garfo de plástico. Até que retirou mais papéis e um papelzinho amassado, em especial. Era uma nota de dois reais. Havia então parado de procurar. E continuou. 

-A Igreja Universal me persegue, sei disso. Minha filha morreu por conta do tráfico. Fora esse perigos, acho que tem outros também, sabe, filho? Aqui em São Paulo, tem muito preconceito contra gente como eu. Contra preto, contra pobre, contra nordestinos. Há pessoas que me desrespeitam muito, essas brancas mulheres de traficantes. Ficam na fila, demoram dentro do banheiro, falando no celular, e nao me deixam usar o banheiro, aí eu mijo na roupa mesmo. Por isso às vezes fico fedendo.

Nessa parte da conversa, ela já falava rompida comigo, sabia que meu ônibus sairía logo, seu discurso voltava a si mesma, com um ritmo que somente ela acompanhava. Foi arrumando todas as sacolas, amarrando-as todas, embrulhando os desembrulhos. Levantou-se de pronto, arregaçou seu braço em minha direção, acenou e sorriu. O sorriso familiar, que permeou toda a conversa. Ainda hoje não descobri de onde tamanha familiaridade. Sorriu largamente, e se foi, sumindo na multidão. Eram seis horas em ponto. Rodei todo o terminal depois disso, até a hora de partida de meu ônibus. Não a encontrei mais.

sábado, 1 de janeiro de 2011

E deste lado, sentado, com as esperanças quase sem caber em mim. Acho que foi a grande lição que tenho tido nesta vida: jamais perdê-la, a esperança. Soa um pouco idiota esses balanços de passagens de ano, mas posso dizer com algum conforto que foi um ano de aprendizado. Aprendi a não me tornar escravo do que sinto, a não esperar acao daquelas pessoas de quem algum dia acreditei que sairía qualquer gesto direto, rápido, certeiro como uma pancada de confianca, reciprocidade, vontade.

As pessoas se resvalam em seus fluxos de continuidade, imprecisao. Se afogam em seus compromissos. Por vezes esquecem de ser o que mostravam ser antes de mergulharem num mundo de ilusoes, abracadas a memórias perdidas, a presentes perdulários, e quase nunca a futuros de esperancas.

É dele que falo! O presente é realmente um presente. É somente o que temos. O que se foi está lá, perdido, entre um canto e outro de apego, de memória, uma reconstituicao. É passado, particípio. O futuro só é esperanca, pois ninguém tem bolas de cristal, e causalidade nao é obviamente lei universal num mundo de caos. 

Resta a qualquer pessoa seu presente, e diante de insatisfacoes, a esperanca. 

E no primeiro de janeiro de 2011, refiz meu compromisso com minha esperanca. E vi a primeira mulher tomar posse no cargo de presidente do Brasil. 

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Acréscimo



Crescia, sem medo. Inerme, a correr naquela vastidão, com seus pezinhos afoitos e serelepes. Produzia buracos resvalados, pequenas tocas onde faria caber cada sentimentozinho seu. Não sem puxões de orelha de seu tutor: "-Abigail, você quer pegar bicho de pé? Amarelão?" Recontava cada episódio da infortúnia preguiçosa de Jeca Tatu, com ar de repreensão, mas ao mesmo tempo com seus olhos molengos, empapados sob aquela bolsa gorda e pintinhas ao redor. 

Abigail se sentia assim, feito Jeca. Sempre que comia aquele prato de arroz e feijão e se deparava com a enorme vastidão de luz que acachapava a cabeça dos peões. Era muito sol, e quente. Amolengava-se cantando samba lelê. Pena lhe era que esse mesmo sol não esquentava as bóias-frias. Ao menos seu prato permanecia quente, graças ao formidável fogão de lenha que Seu Valfrido mandara construir no anexo da usina. Não que isso lhe tornasse um homem melhor, ou de coração mais macio. Antes pelo contrário. Trazer Padre Tadeu fora apenas uma expiação de culpa, dessas que afligem corações perversos. Queria, antes de controlar peões com sermões do padre sobre a bondade do cultivo e do senhor, encontrar ali no seu complexo universo um confessor, alguém para quem pudesse dizer todas as maldades que inventara. 

Claro que Abigail já havia feito a pergunta a Tadeu. Mesmo tendo crescido sem ter visto de perto o que poderia ser uma vida doméstica, familiar, quotidiana. Via meninos e meninas que chegavam junto dos volantes, a chamar de "mainha" e "paim" algumas almas obinubiladas pelo facão e fogo. Foi quando conheceu  Junim. 

Surpresa ou não, foi a primeira pessoa por quem guardou um afeto. Mal havia completado seus dez anos, mal sabia que emblemas revestiam os problemas da vida extra-canavial. Mal sabia que seu apego era o início da broca que atua no interior de si, perfura, deixa rasgos que nunca se fecham. Não que fosse paixão, pois nada havia ali além das meninices. Mas havia algo muito diferente do que tinha por Padre Tadeu, ou pelo que poderia perceber de sua experiência com Pitoco, seu primeiro cãozinho de estimação, ou por Dona Maria, cozinheira que fazia o feijão tão jeca-tatuzante. Era um apego de inércia, sabia que aquilo não acabaria, se acabasse seria o fim. Foi aí que esboçavam cavaleiros e armaduras, brincavam de pique-esconde em labirintos nem tão criativos assim, apedrejavam calangos, brincavam de atrapalhado mãe da rua entre si mesmos. Junim lhe contara sobre sua vida na zona rural de Ibaiúna, sobre seu pai e sua mãe. Foi o primeiro contato que Abigal teria com essa realidade.

  

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Nascimento de Abigail.

Quero criar. Fiat lux, facio vitam. Fictícia, concordo. Rasguei as entranhas, rejuntei aminoácidos, proteína. Expeli líquidos, misturei todos eles. Uma manipulação que impõe medo. Desses, que fazem ranger dentes, criam carolas apavoradas, rezas de interior, velas acesas. Clonagem, reprodução assistida. Traz medinhos em gente pouca.

Assistam a Abigail. Entre um sufoco e outro grito, cachorrinho, cachorrinho. Aquela cena estava um nojo. Importava pouco de onde viera, aquele ambiente pedregoso, de varas de açúcar nada doces e marmitas, dormitórios coletivos e gosserias de tratos e mãos. Sobrava placenta, sangue, e dor. Muita.

Que referências poderia ter? A monocultura, o capataz que lhe perseguia, Padre Tadeu, as cobras perversas, a queimada. A usina. Os caminhoes.  

Importantes, os caminhões. Eles vão e vem, na velocidade industrial. Chegam pessoas, saem outras, chegam máquinas e sai açúcar. Uma saída. Transe. 

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Deste pedaco de Sulamerica, parte I

Eu vivia até certa fase de minha vida aquela letargia imbecilizante de classe média. Vislumbrado aos caprichos da venda de imagem da boa vida, da bonanca primeiro-mundista, da rejeicao às formas, representacoes e realidades desta terra mazomba. Esse fetichismo tao criticado, que favorece um encanto à imagem da funcionalidade, da precisao, do ideal. Uma coisa meio Nabuco. Deve ser por conta disso que fui estudar no exterior, me encantei com essas facilidades contemporâneas de ir e vir, me enveredei nessa proposta germânica.

Digo que superei essa imaginacao conhecendo mais do Brasil. Estou escrevendo sem muito propósito, mais como uma breve descricao reflexiva dos locais aos quais viajei, pertencentes a esse continente de cruz santa e índole papagaial. 

Recife. Nao, nao quero falar de praias, tapiocas ou cocos, tampouco tubaroes. Me impressionou o tamanho dos arranha-céus em Boa Viagem, certamente um desses milhares de influxos que toma a concentracao de capital, a composicao de grupos sociais. Fico buscando essa cadeia multi-causal, em que talvez a economia acucareira montada desde a colônia tenha proporcionado. E aí se formam as elites locais, e aí elas querem mais, e aí vêm e vao uns movimentos liberais, até que a marcha industrial se torna inevitável, e o boom dos modelos se prolifera. Ao mesmo tempo em que permanecem barraquinhas escambadas no entorno da universidade. 

E resquícios evidentes daquela sociedade descrita por Freyre. Nao é que fui à padaria, na simples intencao de tomar meu desjejum e me deparo com um deles? A proprietária, matrona, gorda e sentada, apenas a contar suas breves notas do caixa. "Seus" funcionários (nao por coincidência, negros), a esquentar leites, servir café, fazer sanduíches de mortadela, limpar o balcao e espantar moscas insistentes. Ainda que as demandas da padaria crescessem vertiginosamente nos breves minutos em que lá estive, a proprietária permanecia inamovível. E os funcionários, todos, a escutarem suas ordens atendendo com um vocativo: -"Senhora?"

Outro ponto desse imaginário e quotidiano resvalados de colonialidade: orgulhou-se uma colega ao dizer que o sotaque pernambucano era o mais próximo ao português luso em toda a regiao nordeste, no sentido de nao se produzir quaisquer sons chiados, quando se pronuncia o "d" e o "t". Ou uma tentativa de resgatar essa língua colonial perdida, mimetismo metropolitano, por parte da atendente da banca de jornais e salgados: "Este salgado, é de quê hein moca?" E ela: -É de queijo e fiambre." Ao que o cliente retruca: "-Queijo e presunto, é?" "-É."

Escapando de anotar, pelas obviedades, a bela paisagem de Olinda, o contraste de céu, mar e coqueiros, ou o casario holandês. As frutas que parecem saciar a interminável sede quase equatorial, caju, cajá, graviola, coco. As identidades que se inventam no espaco urbano: uma cadeia de lojas chamadas "farmácia dos pobres". Um vaivém de homens de regatas, chaves e pochetes, e mulheres com sacolas e saias. E sim, os pernambucanos reclamam do calor, mesmo morando ali desde sempre.

Lugar melhor pra se discutir história colonial nao há. 

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

América Barroca, de Janice Theodoro

Capítulo 1. Descobrimento da América: a comemoração como o narciso da cultura latino-americana

Muitos países das Américas ainda mantêm sua ancestralidade cultural e étnica. A violência dos conquistadores é ponto comum de acordo no processo colonizador. É parte do imaginário comum a ideia de que as relações familiares eram mais estreitas junto às comunidades primitivas modernas, o que geraria um certo senso de recusa inconsciente dessa mesma sociedade tida por arcaica e atrasada. Assim é que também são preservados certos gostos por tradições coloniais, das quais não se quer afastar, mesmo após as independências. Apenas parecem ser modernas, as sociedades americanas de hoje. Pensar uma comemeoração dos descobrimentos é pensar em acontecimentos selecionados e conservados através de uma narrativa histórica, que ganha sentido à medida que é inserido numa grande cadeia explicativa da ancestralidade. Mas se um acontecimento é eleito, nele convergem linhas de desarticulação e rearticulação do relato, conferindo-lhe significados libertadores. 

Os descobrimentos correspondem a duas ordens de significações: uma, a do imaginário europeu do século XV, em que a América deveria se transformar num Novo Mundo, em que os conquistadores deveriam implantar todos os padrões básicos da vida europeia. A outra, tendo por base os fragmentos das culturas pré-colombianas, favorecendo a concepção utópica de sociedades sem classe. Essas duas ordens de significações pretendem satisfazer de forma narcisística o nosso ideal de cultura. A comemoração do descobrimento objetiva, em última instância, desvencilhar-nos de modelos arcaicos cristalizados.

A vertente ibérica que colonizou a América transportou o cenário medieval para o outro lado do Atlântico. As naus traziam, além de suprimentos, objetos que recompunham as estruturas de poder na Europa. A repetição e valorização do passado, para o colonizador, conferiu-lhe certa visão profética do processo colonizador. Valoriza a majestade de vida, da edificação pela pedra e suas imensas catedrais. Heróis são constituídos, tipo Camões. Já a vertente anglo-saxã, constituiu uma cultura que colocava dúvidas aos referenciais de origem. A história da Inglaterra era a de um mundo em crise, distanciando-se das representações heróicas do modelo ibérico. Optou pelas navegações e pirataria, e uma percepção bastante econômica de suas relações com o mundo recém-descoberto. O colono inglês constrói todo seu universo material sem apoio do Estado, o que o obriga a tomar consciência de sua situação real. Já o espanhol incorpora a presença do Estado através da possibilidade de recompor seu imaginário senhorial. Luxo, majestade, fortuna e glória lhes são máximes. Já as fantasias dos ingleses valorizam os elementos da cultura que possam ser apreendidos sob o signo de função. Não constrói para a eternidade, deixa margem para a mudança. É possível romper com o passado colonial. Daí se explica parcialmente a proliferação de fantasias democráticas e mudar estruturas político-econômicas atreladas ao passado colonial. 

A América foi inventada antes de ser descoberta. O descobridor representou seu sonho. O novo surge como reflexo do velho. Era indispensável a implantação de uma cultura material europeia manipulada pelo conquistador, expressões cênicas dos descobrimentos e da colonização. Paralelos entre o massacre do Templo de Tenochtitlán e o retorno de Ulisses, ou entre as pinturas renascentistas e a história norte-americana. Os símbolos da servidão deveriam ser repetidos. Mas as populações indígenas deixavam transparecer outras formas de conduta. A cidade era um lugar privilegiado para a realização de um longo ritual, no qual europeus e indígenas se tornavam artífices do Novo Mundo. A Igreja costumava fazer a tradução de símbolos e corporificar as harmonias do universo. A união das raças promovia a gradual perda da identidade europeia, e um mundo dito novo se fez a partir da renúncia do velho mundo. Uma memória fragmentada organiza, assimila e miscigena, compondo a fantasia da identidade latino-americana. A dificuldade, por exemplo, de se impor se fez presente na ocupação do México: procurou-se estabelecer uniformidade de ruas e fachadas e construções, que obedecessem aos padrões europeus. Além do trabalho de catequese, em que os indígenas aprenderam a imitar, mas não a recordar, como faziam os europeus e seu modo de pensar. O indígena reproduz o desconhecido, nesse sentido. A ruptura com as metrópoles não alterou as relações sociais, mantendo-se intactos os símbolos de poder. 

A oposição entre vencedores e vencidos é um tema de abordagem complexa pois a oposição se constitui quando analisada pelo código europeu. A cultura europeia, transformada em universal, acaba sendo utilizada como padrão único para ordenar e decifrar todas as culturas. Quando se supõe a possibilidade de descrever todas as civilizações, é trabalhada a hipótese de uma memória unívoca, sequencial, marcada pela ideia de progresso. Saimos do confronto para a assimilação. A cronologia que se sustenta pela cadeia de eventos escolhidos a posteriori, reverencia a história iniciada pelos descobrimentos. O conflito valorizado, se torna a raiz de nossa identidade. O que conhecemos, o que restou, são fragmentos esparsos. Resgata-se o movimento de oposição entre dominadores e dominados, e muitas vezes se resgata o passado pré-colombiano com a sensação do esquecimento e da perda. Não é possível se falar em assimilação, uma vez que ambas as culturas (nativa e europeia) não possuíam o mesmo tipo de padrão cognitivo. Vencedores e vencidos é uma terminologia que pressupõe possibilidade de resistência cultural. Um desejo profundo de se recuperar um universo perdido, reabilitá-lo como raiz de identidade indígena nacional. Sonhos de ordem, precisão, perfeição são sonhos onipotentes, sonhos modernos, do homem moderno. 

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Mais Fernando Novais

Capítulo III- Os problemas da colonização portuguesa.


Na segunda metade do século XVIII, convergem duas tendências no comércio colonial e internacional: de um lado, o desenvolvimento irreversível da revolução industrial inglesa exigia cada vez mais a abertura dos mercados ultramarinos consumidores de produtos manufaturados; por outro lado, a política de autonomização e desenvolvimento econômico dos países ibéricos ia cada vez mais dificultando a penetração dos produtos ingleses nos mercados do ultramar pelas vias metropolitanas. (p. 123). As tensões desencadeadas pelo surto industrialista ameaçavam o próprio pacto da Inglaterra com suas colônias. Essa crise é apresentada como desafio à administração metropolitana, que a deveria enfrentar e resolver.

Portugal está em acentuado crescimento populacional. Apesar de alguns autores apontarem tal crescimento como relacionado a um certo incremento das atividades econômicas, o que se observa de fato é o profundo retraso de Portugal no sentido de levar a cabo um projeto de expansão das atividades manufatureiras organizadas em moldes capitalistas, o que já havioa sido denunciado por Alexandre de Gusmão, D. Luís da Cunha e outros. Uma política verdadeiramente protecionista e industrialista não se articula antes da terceira fase do governo de Pombal, que conduziu, segundo o autor, política manufatureira coerente e sistemática- tratou-se de esforço de recuperação. Esse desenvlvimento é tardio, mantem o problema do atraso e decadência. Já o Brasil mantém, em suas estruturas básicas, no arcabouço de sua economia exportadora e nas feições de sua sociedade escravista, os traços fundamentais da vasta zona periférica de exploração das economias dinâmicas do Velho Mundo.

Como Portugal poderia defender seu patrimônio (preservar seus domínios coloniais)? A defasagem do crescimento português em comparação às demais metrópoles europeias, e a pequenez geográfica do reino luso em comparação a seus domínios tornavam a manutenção territorial um problema. É no período do gabinete de Pombal que se lançam as linhas de definição territorial e preservação das fronteiras. A transferência da capital do Brasil para o Rio de janeiro e a do Governo do Maranhão para Belém do Pará demonstra essas preocupações de natureza geográfica. A competição colonial é agravada de forma definitiva, revestem-se de preocupações militares a questão da proteção do território e da integridade das possessões. Havia a preocupação também de certo perigo interno de uso de força e violência (causados pelos naturais do país, p. ex.). Os colonos começam a tomar consciência das oposições de interesse, a assimilar ideias revolucionárias, a aderir a ideias de contestação. Uma vez rompido o primeiro elo - a independência das colônias inglesas da América Setentrional - todo o arcabouço do Antigo Regime entra em crise. Por isto mesmo, a defesa do patrimônio colonial significava também a manutenção do absolutismo na Metrópole.

A importância da filosofia crítica da ilustração passa a se constituir como parte integrante do processo de alteraçao estrutural. Convergiam argumentos idealistas e argumentos utilitários para configurar o anticolonialismo das Luzes, que criticavam a dominação política da Metrópole, exclusivo comercial, escravismo e tráfico, a América voltava a penetrar no horizonte intelectual da Europa. A face reformista das luzes que incidirá mais sobre a metrópole, na colônia, a face revolucionária. A literatura iluminista será recorrente nas estantes dos intelectuais brasileiros desse período, que passarão a tomar consciência de que a Europa estava chupando toda a substância das colônias, de que o rei era como qualquer de nós, e que isso de religião é peta.

O que se tentará fazer é impedir o enfraquecimento do exclusivo metropolitano, coibindo o contrabando através de severa fiscalização e legislação. A metrópole não podia abrir mão do sistema. Curioso dizer que o contrabando era ele também um flanco de entrada de livros proibidos e mercadorias que eram impedidas de chegar aqui. Uma certa resistência, por parte dos colonos, à prática do exclusivo metropolitano do comércio, vai se engendrando com o próprio desenvolvimento da colonização. O regime promovia incrível alta dos preços e escassez das mercadorias estancadas, e criava condições para o florescimento de uma sinistra casta de atravessadores. Claro, o sistema era criticado pelos teóricos do mercantilismo ilustrado. Como também o foram as Companhias de Comércio. Há uma fissura entre os interesses dos mercdores e os interesses da Metrópole.

Também era necessário reover os óbices internos que tivessem operado no sentido de travar o desenvolvimento industrial e canalizar as vantagens da exploração colonial do sentido de superar a acumulação primitiva e desencadear um processo de desenvolvimento manufatureiro. Nessas condições, a própria assimilação, pela Metrópole, dos estímulos, engendrados pela exploração das colônias, se constituía num problema. Assim é que o Brasil vai se tornando cada vez mais vital para a sustentação da metrópole. Várias linhas de argumentação são conduzidas para justificar o atraso da metrópole portuguesa: uma que estabelece que o período filipino teria impedido o reino de cumprir sua vocação ao progresso com D. Sebastião, em clara interpretação ufanista: uma segunda vertente, que propugna a ideia de que a perda das feitorias do oriente, a descapitalização de Portugal pelos espanhóis e o atraso do Reino pela decadência espanhola. Uma terceira linha atribui o atraso do reino à ação expoliativa da Inglaterra. E uma última linha explicartiva afirma que as próprias colônias (falta de gente, atraso da agricultura, não desenvolvimento manufatureiro) seriam responsáveis pela ruína de Portugal.

Esta última linha é exposta pelo autor como capaz de explicar parcialmente a decadfência do Reino, mas que certamente se somavam a vários problemas que se ligavam uns aos outros, em que o Portugal da época moderna parece configurar a situação de cristalização do capital comercial, que cria classes não-produtoras, homens de negócio, gente da nação, reinvestindo-se na riqueza móvel, se bloqueava a transição da acumulação mercantil para o setor produtivo. A formação social decorrente do quadro econômico é, portanto, fator de manutenção das estruturas arcaicas e do engessamento da modernização/industrialização portuguesa.