"Sabe o que é? Nunca procurei respostas. As perguntas, elas sim, me incomodam: ressoam, reverberam, ricocheteiam. É tipo um masoquismo da dúvida."

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Tucanices

Em meio a algumas declarações arrombadas pelo frissom midiático, o PSDB, assediado e aquecido pelas indagações constantes, vislumbra os planos de vôo do tucano capenga. 

O atual governador do Estado de Minas Gerais diz não compor chapa com José Serra, e que vai disputar o Senado. Num discurso macerado por uma elevação de Minas ao cenário nacional, Aécio Neves envolve o eleitorado mineiro com uma apegada elevação da "mineiridade", instrumento decisivo de apoio de importantes segmentos do eleitorado de Minas, segundo colégio do país: empresariado, classes médias urbanas, proprietários rurais, aos quais tal discurso engendra uma esperança de resgate e inserção em um projeto nacional encabeçado por Minas, e não por São Paulo (sim, tal debate ainda baliza os corredores da política brasileira). 

Conforme o neto de Tancredo:
 
"Ter passado sete anos como o governo mais bem avaliado do país é motivo de honra. Não para mim apenas, mas para todos os mineiros. Quanto ao futuro, fiz uma opção muito clara hoje. Serei candidato ao Senado da República por Minas Gerais e no Congresso quero dar continuidade ao trabalho que iniciamos aqui, defendendo lá, os interesses de Minas Gerais"
 
A tradicional aliança com os DEMOs parece mais certa. Agripino Maia, talvez?



São Francisco do Sul, terceira vila da América portuguesa (?).

Hoje folheei uma das edições da Revista História Viva, da editora Duetto, que tenho aqui em casa. Uma história interessante, que revela ter o capitão francês Binot Paulmier de Gonneville ter partido rumo às índias e, por óbvia e banal tempestade na altura do Cabo da Boa Esperança teria mudado o curso do L'Espoir (A esperança). Veio parar aqui no Brasil, à altura de Santa Catarina, tendo estabelecido contato com os índios carijós. Um deles foi levado à corte, Içá-mirim, rebatizado como Essomeriq pelos franceses. Os relatos da viagem, a qual conseguiu alguns escambos com as tribos locais e sofreu baixas com ataques de tupinambás e piratas, foi estampada na Relação de Viagem de Gonneville, requisitada por Luís XIV a um dos descendentes do índio Essomeriq, em razão de um dos direitos do monarca de cobrança de impostos a estrangeiros (obrigação que era sucedida a seus descendentes). Foi assim que o relato fora descoberto, e representa mais um pedaço da trama francesa no Brasil.

O mais interessante, mesmo, é reparar a - ainda que sutil- semelhança entre São Francisco do Sul (apenas achada em 1504, mas não fundada pelos franceses, tendo sido efetivamente ocupada apenas no século XVII por portugueses) e Honfleur, porto de onde partira o L'Espoir. Que acham?


São Francisco do Sul, SC- Brasil
                                                  Honfleur - Normandia - França

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Tempo do esquecimento

E ontem caminhava o João na região central de sua cidade, atrapalhado por algumas luzes foscas de uma praça que choramingou por ideais tão nobres, mas profundamente adormecidos em uma sociedade de padrões hedonistas tão planejados e normativos, tangenciando existências em torno de supostos projetos de felicidade.

Lá ia o João, a pensar em seu pequenos planos de felicidade, depois de conversas abestalhadas, caipirinhas, sorrisos e percepções. Pensava em existência, segunda chance, reencarnação, o que houvesse.

Até o sinal. Não são significados, estamos falando de significações. Conferir sentido aos inúmeros dados, sem deles esperá-los antecipados conceitos. O sinal em que se cruzam a avenida Brasil e a Cristóvão Colombo:  início de empresa num vasto mundo, e um de seus grandes feitos, outro vasto mundo, de sertões.

Foi quando vi três pessoas saindo de um carro, meio confuso ainda por meus pensamentos. E por incrível que pareça, as três personagens urbanas que pareciam ter saído do automóvel nada tinham em comum, era como se tivessem sido despejadas por seu motorista. Ao que me surge uma figura meio desbaratinada, cerceada por sua solidão e seus movimentos esganiçados, vacilantes, tortos.

Usava um véu a cobrir-lhe os cabelos, raquítica, rugas lhe marcavam todo o rosto. Seus dentes inferiores, cobertos por amálgamas inúmeros, empretecidos pelo tempo, pela carência, pelas cáries, apagavam os sinais de sua aparência, vez que reluziam ao mais fraco sinal de luz. Mas seus olhos, esses, não diziam outras palavras que não "passado" e "sofrimento", misturados entre si no presente que lhe parecia ser interminável.  Me indagou, num voz mole, trêmula, carregada de sotaque sertanejo:

-Ô moço, acabei de chegar de Teófilo Otoni agora. Sofro de asma, sabe como? Vou para a casa de minha sobrinha em Santa Luzia, você poderia me dar uma ajuda, preciso comprar um medicamento e em vou ter que fazer uma cirurgia na bexiga.

Mostrou-me seus pontos e usar uma fralda incapaz de preencher com algum volume o vazio de suas saias. Suas palavras, completamente banalizadas por segmentos sociais abastados, noutras bocas poderiam permanecer banais, mas não naquela cheia de dentes careados. Abandonada, ignorada, desprezada, invisível.

Disse-lhe não ter qualquer tostão furado no bolso. Mas sua timidez foi tomada por uma necessidade premente de medicação. Perguntou se não poderia acompanhá-la até uma farmácia. Perguntei: mas aqui perto? Não sei de nenhuma aberta. Me disse ter na Afonso Pena. Lembrei da Araujo e sugeri que fôssemos andando até lá. Suas pernas frágeis, sua lentidão, permitiram tentar alguma conversa. Perguntei sobre a cirurgia, quanto tempo ficaria em Santa Luzia, sugeri ambulatórios paroquiais, em palavras muito tímidas e pouco fluidas. Ela me perguntou se eu morava por perto, em sinal de evidente cansaço, e se eu não tinha carro. Respondi que não. Disse-me ah, mas Jesus há de querer que o você um dia vai ter. 

E fiquei pensando...Um simples problema de distribuição de recursos, uma evidência da deterioração humana causada pela inoperante alocação e equalização dos mesmos recursos. Enquanto carros são fabricados, na artificial necessidade (gastando inúmeros fatores para sua produção) da classe média alta, outras almas são desfabricadas, perversamente digeridas por carências e necessidades fundamentais, e não por sofrimentos supérfluos. Mas o que almeja João? Que se deixe de oferecer os prazeres mundanos aos homens para se ofertar aos outros subumanos suas necessidades fundamentais? Não faz sentido, não é? As pessoas querem se embriagar, comprar suas belas gravatas e ternos, freqüentar as festas badaladas, ter o melhor carro, sua vida é apenas a sua, e importa-lhe pouco o que sofrem os outros. E a última solução, o Estado, sabe-se bem tratar de um leviatã dos olhos furados. À Dona Maria, resta o esquecimento, sua asma, seus dentes podres, sua inanição, seu fedor. 

Andamos até a praça da Savassi, deixei-a esperando, comprei dois Aerolim spray, remédio de que necessitava, umas bolachas e um macarrão. Confessou sua fome, e que queria comer um prato de arroz com feijão. Não tinha nada parecido por perto, tive de ir ao Mc Donald's e lhe comprar um sanduíche. Dei-lhe um abraço, meio tímido e enfraquecido por aqueles braços magros que se confundíam ao segurar a sacola com as coisas, e o sanduíche. Desejou-me bençãos. Desejei-lhe boa viagem, e felicidades, apesar de saber que tal palavra possuía-lhe significação muito diferente da que costumo conferir a ela.   


   

sábado, 30 de janeiro de 2010

Reunião

Fazia calor. Meu pescoço, minha nuca, até minhas pestanas suavam, mesmo sem ter ideia do que fosse uma pestana. Em duas horas de conversa, claudicava meus dedos em batidas inaudíveis, no pano verde de veludo, meio desbotado nas beiradas, do sofá. Enquanto isso, Elias reclamava sobre as palhaçadas do sindicato, e dos dirigentes que lá estavam a afirmar sua predisposição política, sua vocação enérgica, bradando discursos anacrônicos e na maioria das vezes fadados ao insucesso, por nunca terem alcançado as verdadeiras causas sindicais. Meus dedos no sofá, repetindo movimentos abafados pelos murros que Elias dava na mesa central da sala, pareciam uma sonatinha nervosa, como de teclas repetidas, se pudesse ser ouvida. Era a mesma impressão que tinha daquilo tudo: ninguém os ouve, enquanto batem na mesma tecla. 

Maíra, enquanto isso, arregaçava as mangas de sua blusa de tricô que, não fosse aquela peça preta por debaixo, deixaria mentes curiosas trabalharem ainda mais na trama de tantos buracos. Era magricela, mas tinha um par de seios rijos, apontados para os lados em sua postura mais ou menos ortodoxa. Suas sobrancelhas grossas entonavam uma sinfonia clara de satisfação com aquilo tudo, mas seu olhar, lânguido e perdido acima de algumas rugas, minimizava qualquer esperança de que fosse intervir no meio da conversa. Tinha uma expressão que remetia a lembranças vagas de almoços de domingo, em que preferia se meter em vestidos curtos e sair por aí, abandonando aquela patifaria constante de conversinhas de família, probleminhas cotidianos, cebolinhas e receitinhas. Aquilo não gerava desconforto, mas ódio tamanho que fazia as tias afastarem suas filhas de conversas com Maíra, e olhares cobiçosos de cunhados e primos. Desde que seu pai morrera, e sua mãe tinha se abestalhado depois de um derrame, preferiu encarar sua existência nesses termos. E não esperava grandes amores, apenas descobertas.

Foi quando achou Laércio. E tramelhou-se na confusa trama de bancários solapados por convulsões constantes, e atitudes subservientes. Sua taça de martini dizia mais, espirituoso a balancear, rodopiando suas versões de historicidade, aquilo que lhe punha tão humana, e tão distante.

Acendi um cigarro, e apaguei as versões presentes sobre estalos, fundos de pensão, contribuições sindicais, baboseira. Permanecemos eu e ela, resgatando nossos corpos,  fumaças bailantes e trilhas comuns, numa espécie de pingue-pongue de olhares conscientes. 

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Decerto, um decreto e um cargo nada discreto


Por mais enfadonho que pareça, não poderia deixar de registrar.

Um telefonema ao Gabinete da Presidência da República. Não consegui encontrar um Decreto novo, assinado ontem a quatro mãos, com o Ministro da Justiça. Decreto que instituiu bolsas de capacitação e treinamento de pessoal envolvido com Segurança Pública (policiais militares, guardas municipais, bombeiros) que atuarão nas cidades sede da Copa do mundo no Brasil. Uma inciativa e tanto, especialmente visando instruir os agentes de segurança pública em assuntos como direitos humanos, respeito a diversidade cultural, religiosa, sexual, étnica (sim, ainda no Brasil há uma necessidade expressiva de expurgar certas heranças coloniais abraçadas por gerações, e provincianismos tacanhos que não condizem com esse mundo dos intercâmbios constantes).

Ao que me veio não uma, mas duas ou três transferências de ligações, jurídico, legislação, até que me promoveram o encontro com uma voz arrastada, de sotaque carregado (Alagoas, talvez). Ia olhar se o Decreto havia sido publicado no D.O.U. Não. Teria de esperar.

Saí do momento com as indagações sobre o que deveria ser Presidente da República. Tá, sabemos todos do excesso de argumentações infantis que cerceiam a figura: todas as vicissitudes da máquina estatal, dos diferentes níveis de poder são canalizados na artificial instância do presidencialismo: o voto mais disputado por esbofeteamentos e debates quentes. Me fez lembrar até de uma entrevista de recenseamento, há uns quatro anos, com uma senhora de Raposos: "moço, o rio enche sempre e inunda minha casa, você devia falar com o Lula isso".

O chefe da Administração Pública federal, conhecer o que se passa em Ministérios, Secretarias, o que os outros poderes têm feito, e o comportamento de suas instituições no curso do jogo democrático. Além de política internacional. São os exageros da centralização administrativa. Necessária? Sempre me pareceu mais atrativo contrabalançar poderes: algo com leve cheiro de mandatos consulares em Roma antiga: um cônsul para assuntos exteriores, um para política e arranjo institucional, um para administração. Mas esfriaria a atratividade do cargo, e seus desdobramentos eleitorais.

Fato é: eu não dormiria muito bem com responsabilidades semelhantes.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

O gato esperneia à primeira ameaça de banho.


A admoestação que apazigua as tensões, que mistura encantos e ilusões de um debate avexado e deslineado, reconstituído sobre os pilares de permanência histórica sufocante, e muito delicada.

Afinal de contas, que modernização se pretende propor a uma sociedade marcada por rijas paredes do labirinto das civilizações?

O gato esperneia à primeira ameaça de banho.

São quase 200 milhões de almas e mais 510 anos de forjamentos e identidades artificiais, parcelas monolíticas, ou megalíticas, a esmagar os chios e choros que ecoam nos sertões, nas grandes e pequenas cidades.

Sem dar conta, em sutis comportamentos(ou algumas vezes medonhamente escancarados) no quotidiano da "nação inventada" com pretensões de futurismo e arrojo, são levantadas facetas da cultura colonial, da Casa Grande e da Senzala: um destrato do garçom no café, uma gargalhada da cena de tortura de um filme, uma abominável exaltação de nomes e titulações, uma símia idolatria acadêmica de ícones estrangeiros, e uma repulsa incontida a palavras como "social", "reforma agrária", "bolsa família", "assistência", "inclusão", "cotas" e "emancipação".

A ferida, recoberta por uma casca de anos, latente, à espera de oportunidade para expelir sangue e pus, ao primeiro toque verdadeiramente incidente. Ou esperar sua morosa cicatrização, constantemente ameaçada por infecções quotidianas.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Experimente, leitor, ouvir isto daqui com umas belas taças de vinho tinto do lado. Nada melhor.

http://www.youtube.com/watch?v=K047-ZiFUbs

Memorial de Áries


Alimentava suas esperanças em um horizonte em ressaca. Aquelas nuvens borradas ao fundo, o frio contido em seu ventre, e noites mais ou menos dormidas, em que seus pensamentos pareciam tornar-se sonhos de interpretações forçosas. Acreditou naquele papo de que sonhos têm fundamento, e que representam carências pessoais. Negativo! Seus pensamentos, esses sim. Sonhos são incontroláveis, e escarneiam e sarcasmizam as banalidades mais turvas dessa vida cotidiana, enfadonha e molestada.


Tinha uma vida pela frente sem tê-la. Tudo que tinha eram nuvens, e por serem nuvens se desmanchavam ao primeiro sopro mais revolto que aparecesse. E lá se iam tomando formas cirróticas, sem preocupar com as comparações infantis entre suas formas iniciais e objetos quaisqueres: bola, cão, carneiros.


Carneiros! Que idiotice! Se viu um carneiro na vida, foram umas duas vezes. Uma na fazenda de Tio Abelardo e outra, quando visitou aquela feira agropecuária em São João. Depois disso, o bicho não passava de uma vaga lembrança de documentários televisivos, ou figurinhas de álbuns.


Maior idiotice era aquela trouxice de carneiros ao dormir. Insônia? Carneirinhos! Nunca conseguiu imaginar algo além de um algodão avantajado saltitando feito um pônei sobre uma cerca. E nunca conseguira dormir com essa imagem na cabeça. Seria pelo menos idiota, e menos incomodante que seus pensamentos triviais.

Hay que suavizar pero sin perder la conjetura jamás


E o Chile se descompassa da dança...


Atravessando a fase da recente experiência democrática latino-americana, o Chile elegeu seu novo presidente com as esperanças de, segundo o próprio eleito, Sebastián Piñera, "promover mudanças necessárias ao país". A pergunta que não quer calar é: foi a incapacidade da popularíssima ex-presidente Michelle Bachelet transferir seus votos a Eduardo Frei? Ou há algo tão estreito quanto o Chile a rondar os entornos do Palácio de La Moneda?


Fato é que as reformas implementadas no governo Bachelet, apesar de controversas, foram bem aceitas pela população: auxílios aos necessitados nas regiões semi-polares do país, reforma da saúde com a construção de hospitais e a inserção de uma agenda ambiental para as políticas de governo. E, claro, como não poderia deixar de ser, o bom momento em que respirou a economia chilena nos últimos quatro anos, apesar da crise econômica atual, com o aumento expressivo das exportações de cobre e o crescimento de atividades relacionadas a essa indústria.


Bem, o resultado "en Chile" só nos mostra os desafios da esquerda (moderada?) sulamericana...E os custos do jogo democrático. A abominável tendência presidencialista, que chacoalha carismas ao sabor de ondas marqueteiras, coloca os preços dos projetos de governo sob o dilema das rupturas. "O que é bom tem que continuar", essa é a melhor expressão em campanhas eleitorais. Mas a realização dos governos passa por problemas da administração que vão muito além de belos discursos. Sacrifícios sempre ocorrerão: ora de camadas sociais, ora de agentes econômicos, ora do próprio Erário. O peso de uma escolha é a exclusão, gregos jamais foram troianos. "Concertación" é lindo como um Boticelli, mas inóspito feito um Casper David.


É o desafio para as eleições brasileiras de 2010. A esquerda petista terá de assumir os riscos do presidencialismo, transferir votos de Lula a Dilma sem acreditar em projeções ilusórias de vitória antes da hora.


Enquanto no Chile, a empresa (AXXXION) de que é grande acionista Piñera teve alta espetacular no mercado de títulos, após sua eleição. Tudo na mais bela clareza entre empresariado e política.


Foi um passo estrambelhado à direita, na dança sulamericana.



domingo, 17 de janeiro de 2010

Amadurecem as instituições?

Mais uma do mensalão demoníaco.

A oposição que não sabe o que quer, e o fisiologismo abestalhante do jogo democrático.

Michel Temer, líder do PMDB e presidente da Câmara, envolvido no esquema de propinas.
É de competência do Supremo Tribunal Federal autorizar a investigação criminal de Deputados Federais.

Vejamos o desfecho da nova novela.