"Sabe o que é? Nunca procurei respostas. As perguntas, elas sim, me incomodam: ressoam, reverberam, ricocheteiam. É tipo um masoquismo da dúvida."

sábado, 30 de janeiro de 2010

Reunião

Fazia calor. Meu pescoço, minha nuca, até minhas pestanas suavam, mesmo sem ter ideia do que fosse uma pestana. Em duas horas de conversa, claudicava meus dedos em batidas inaudíveis, no pano verde de veludo, meio desbotado nas beiradas, do sofá. Enquanto isso, Elias reclamava sobre as palhaçadas do sindicato, e dos dirigentes que lá estavam a afirmar sua predisposição política, sua vocação enérgica, bradando discursos anacrônicos e na maioria das vezes fadados ao insucesso, por nunca terem alcançado as verdadeiras causas sindicais. Meus dedos no sofá, repetindo movimentos abafados pelos murros que Elias dava na mesa central da sala, pareciam uma sonatinha nervosa, como de teclas repetidas, se pudesse ser ouvida. Era a mesma impressão que tinha daquilo tudo: ninguém os ouve, enquanto batem na mesma tecla. 

Maíra, enquanto isso, arregaçava as mangas de sua blusa de tricô que, não fosse aquela peça preta por debaixo, deixaria mentes curiosas trabalharem ainda mais na trama de tantos buracos. Era magricela, mas tinha um par de seios rijos, apontados para os lados em sua postura mais ou menos ortodoxa. Suas sobrancelhas grossas entonavam uma sinfonia clara de satisfação com aquilo tudo, mas seu olhar, lânguido e perdido acima de algumas rugas, minimizava qualquer esperança de que fosse intervir no meio da conversa. Tinha uma expressão que remetia a lembranças vagas de almoços de domingo, em que preferia se meter em vestidos curtos e sair por aí, abandonando aquela patifaria constante de conversinhas de família, probleminhas cotidianos, cebolinhas e receitinhas. Aquilo não gerava desconforto, mas ódio tamanho que fazia as tias afastarem suas filhas de conversas com Maíra, e olhares cobiçosos de cunhados e primos. Desde que seu pai morrera, e sua mãe tinha se abestalhado depois de um derrame, preferiu encarar sua existência nesses termos. E não esperava grandes amores, apenas descobertas.

Foi quando achou Laércio. E tramelhou-se na confusa trama de bancários solapados por convulsões constantes, e atitudes subservientes. Sua taça de martini dizia mais, espirituoso a balancear, rodopiando suas versões de historicidade, aquilo que lhe punha tão humana, e tão distante.

Acendi um cigarro, e apaguei as versões presentes sobre estalos, fundos de pensão, contribuições sindicais, baboseira. Permanecemos eu e ela, resgatando nossos corpos,  fumaças bailantes e trilhas comuns, numa espécie de pingue-pongue de olhares conscientes. 

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Decerto, um decreto e um cargo nada discreto


Por mais enfadonho que pareça, não poderia deixar de registrar.

Um telefonema ao Gabinete da Presidência da República. Não consegui encontrar um Decreto novo, assinado ontem a quatro mãos, com o Ministro da Justiça. Decreto que instituiu bolsas de capacitação e treinamento de pessoal envolvido com Segurança Pública (policiais militares, guardas municipais, bombeiros) que atuarão nas cidades sede da Copa do mundo no Brasil. Uma inciativa e tanto, especialmente visando instruir os agentes de segurança pública em assuntos como direitos humanos, respeito a diversidade cultural, religiosa, sexual, étnica (sim, ainda no Brasil há uma necessidade expressiva de expurgar certas heranças coloniais abraçadas por gerações, e provincianismos tacanhos que não condizem com esse mundo dos intercâmbios constantes).

Ao que me veio não uma, mas duas ou três transferências de ligações, jurídico, legislação, até que me promoveram o encontro com uma voz arrastada, de sotaque carregado (Alagoas, talvez). Ia olhar se o Decreto havia sido publicado no D.O.U. Não. Teria de esperar.

Saí do momento com as indagações sobre o que deveria ser Presidente da República. Tá, sabemos todos do excesso de argumentações infantis que cerceiam a figura: todas as vicissitudes da máquina estatal, dos diferentes níveis de poder são canalizados na artificial instância do presidencialismo: o voto mais disputado por esbofeteamentos e debates quentes. Me fez lembrar até de uma entrevista de recenseamento, há uns quatro anos, com uma senhora de Raposos: "moço, o rio enche sempre e inunda minha casa, você devia falar com o Lula isso".

O chefe da Administração Pública federal, conhecer o que se passa em Ministérios, Secretarias, o que os outros poderes têm feito, e o comportamento de suas instituições no curso do jogo democrático. Além de política internacional. São os exageros da centralização administrativa. Necessária? Sempre me pareceu mais atrativo contrabalançar poderes: algo com leve cheiro de mandatos consulares em Roma antiga: um cônsul para assuntos exteriores, um para política e arranjo institucional, um para administração. Mas esfriaria a atratividade do cargo, e seus desdobramentos eleitorais.

Fato é: eu não dormiria muito bem com responsabilidades semelhantes.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

O gato esperneia à primeira ameaça de banho.


A admoestação que apazigua as tensões, que mistura encantos e ilusões de um debate avexado e deslineado, reconstituído sobre os pilares de permanência histórica sufocante, e muito delicada.

Afinal de contas, que modernização se pretende propor a uma sociedade marcada por rijas paredes do labirinto das civilizações?

O gato esperneia à primeira ameaça de banho.

São quase 200 milhões de almas e mais 510 anos de forjamentos e identidades artificiais, parcelas monolíticas, ou megalíticas, a esmagar os chios e choros que ecoam nos sertões, nas grandes e pequenas cidades.

Sem dar conta, em sutis comportamentos(ou algumas vezes medonhamente escancarados) no quotidiano da "nação inventada" com pretensões de futurismo e arrojo, são levantadas facetas da cultura colonial, da Casa Grande e da Senzala: um destrato do garçom no café, uma gargalhada da cena de tortura de um filme, uma abominável exaltação de nomes e titulações, uma símia idolatria acadêmica de ícones estrangeiros, e uma repulsa incontida a palavras como "social", "reforma agrária", "bolsa família", "assistência", "inclusão", "cotas" e "emancipação".

A ferida, recoberta por uma casca de anos, latente, à espera de oportunidade para expelir sangue e pus, ao primeiro toque verdadeiramente incidente. Ou esperar sua morosa cicatrização, constantemente ameaçada por infecções quotidianas.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Experimente, leitor, ouvir isto daqui com umas belas taças de vinho tinto do lado. Nada melhor.

http://www.youtube.com/watch?v=K047-ZiFUbs

Memorial de Áries


Alimentava suas esperanças em um horizonte em ressaca. Aquelas nuvens borradas ao fundo, o frio contido em seu ventre, e noites mais ou menos dormidas, em que seus pensamentos pareciam tornar-se sonhos de interpretações forçosas. Acreditou naquele papo de que sonhos têm fundamento, e que representam carências pessoais. Negativo! Seus pensamentos, esses sim. Sonhos são incontroláveis, e escarneiam e sarcasmizam as banalidades mais turvas dessa vida cotidiana, enfadonha e molestada.


Tinha uma vida pela frente sem tê-la. Tudo que tinha eram nuvens, e por serem nuvens se desmanchavam ao primeiro sopro mais revolto que aparecesse. E lá se iam tomando formas cirróticas, sem preocupar com as comparações infantis entre suas formas iniciais e objetos quaisqueres: bola, cão, carneiros.


Carneiros! Que idiotice! Se viu um carneiro na vida, foram umas duas vezes. Uma na fazenda de Tio Abelardo e outra, quando visitou aquela feira agropecuária em São João. Depois disso, o bicho não passava de uma vaga lembrança de documentários televisivos, ou figurinhas de álbuns.


Maior idiotice era aquela trouxice de carneiros ao dormir. Insônia? Carneirinhos! Nunca conseguiu imaginar algo além de um algodão avantajado saltitando feito um pônei sobre uma cerca. E nunca conseguira dormir com essa imagem na cabeça. Seria pelo menos idiota, e menos incomodante que seus pensamentos triviais.

Hay que suavizar pero sin perder la conjetura jamás


E o Chile se descompassa da dança...


Atravessando a fase da recente experiência democrática latino-americana, o Chile elegeu seu novo presidente com as esperanças de, segundo o próprio eleito, Sebastián Piñera, "promover mudanças necessárias ao país". A pergunta que não quer calar é: foi a incapacidade da popularíssima ex-presidente Michelle Bachelet transferir seus votos a Eduardo Frei? Ou há algo tão estreito quanto o Chile a rondar os entornos do Palácio de La Moneda?


Fato é que as reformas implementadas no governo Bachelet, apesar de controversas, foram bem aceitas pela população: auxílios aos necessitados nas regiões semi-polares do país, reforma da saúde com a construção de hospitais e a inserção de uma agenda ambiental para as políticas de governo. E, claro, como não poderia deixar de ser, o bom momento em que respirou a economia chilena nos últimos quatro anos, apesar da crise econômica atual, com o aumento expressivo das exportações de cobre e o crescimento de atividades relacionadas a essa indústria.


Bem, o resultado "en Chile" só nos mostra os desafios da esquerda (moderada?) sulamericana...E os custos do jogo democrático. A abominável tendência presidencialista, que chacoalha carismas ao sabor de ondas marqueteiras, coloca os preços dos projetos de governo sob o dilema das rupturas. "O que é bom tem que continuar", essa é a melhor expressão em campanhas eleitorais. Mas a realização dos governos passa por problemas da administração que vão muito além de belos discursos. Sacrifícios sempre ocorrerão: ora de camadas sociais, ora de agentes econômicos, ora do próprio Erário. O peso de uma escolha é a exclusão, gregos jamais foram troianos. "Concertación" é lindo como um Boticelli, mas inóspito feito um Casper David.


É o desafio para as eleições brasileiras de 2010. A esquerda petista terá de assumir os riscos do presidencialismo, transferir votos de Lula a Dilma sem acreditar em projeções ilusórias de vitória antes da hora.


Enquanto no Chile, a empresa (AXXXION) de que é grande acionista Piñera teve alta espetacular no mercado de títulos, após sua eleição. Tudo na mais bela clareza entre empresariado e política.


Foi um passo estrambelhado à direita, na dança sulamericana.



domingo, 17 de janeiro de 2010

Amadurecem as instituições?

Mais uma do mensalão demoníaco.

A oposição que não sabe o que quer, e o fisiologismo abestalhante do jogo democrático.

Michel Temer, líder do PMDB e presidente da Câmara, envolvido no esquema de propinas.
É de competência do Supremo Tribunal Federal autorizar a investigação criminal de Deputados Federais.

Vejamos o desfecho da nova novela.

Aglutinação




-Pai, o que é que as pessoas pensam quando estão trabalhando?

-Como assim meu filho?

-Ah...é que outro dia o Junim me disse que o pai dele está ficando estressado, e é por causa do trabalho. Parece que o lugar onde o pai dele trabalha está querendo mandar umas pessoas embora...

-Sei...

-Eu não sabia o que era ficar estressado. Aí eu perguntei pra Tia Regina e ela me disse que quem fica estressado é quem fica cheio de preocupação, pensa demais na vida.

-Ela te disse isso?

-Disse. E disse que por pensar demais, vive mais pensando que vivendo, e por isso vive menos.

-Hum.

-Então quem está estressado no trabalho fica pensando muito na vida? Deve ser por isso que o chefe do pai do Junim está mandando gente embora: quem vive menos trabalha menos, né?

-É, meu filho, mas quem trabalha mais às vezes vive menos, e quem trabalha menos às vezes pensa demais.

-Acho que vou parar de jogar bola com o Junim. Outro dia ele quis jogar um jogo esquisito, paulistinha...Ele às vezes pensa de menos.


sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

O Haiti não é aqui

Entre escombros, não são os tremores que abalam um país. O verdadeiro abalo, este veio em ondas sucessivas e frequentes, que engendraram o encravamento, na primeira porção de esperança de uma viagem de "sucesso", feita em 1492, da maior máquina reprodutora de miséria humana nas Américas, desde então.

O sangue negro compensou: anos de farras coloniais, engendramento nefasto da perversa lógica preparadora dos destinos agigantados do capital: da colônia à indústria, do tabaco ao aço, do açúcar ao tecido. E, das almas lançadas no mar, agrilhoadas à crueldade às almas que caíam de sono sobre teares em York.

A belissima "prontidão" das nações mais ricas do planeta, essa união do mundo em socorro às vítimas de estragos produzidos por amargas desigualdades confirmadas e chanceladas durante séculos pelos mesmos samaritanos.

Se Toussaint Louverture estivesse a ver o caos do sonho que criara, sonho este detestado pelas nações europeias de sua época, certamente preferiria ter voltado à condição de escravo colonial. O inferno lhe seria menos doloroso.

E, se não bastasse isso tudo, o absurdo chega ao impensável: uma revelação de ignorância e intolerância, sentimentos da mesquinharia perversa e da tacanhez e demência do "ocidente branco civilizado". Ignorar contextos, retirá-los do debate sobre os buracos do mundo, afirmá-los na condição de alheios, de alijados, essa é a atuação necessária de uma macropolítica da exclusão. "O inferno são os outros, e eles que fiquem lá. O Haiti não é aqui. " Na boca do representante diplomático:





terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Trisch, Trasch

Trisch, trasch, movimento,
padam padam, tonto feito Piaf,
Crec, croc, colunas estalam,
Hihihi hohoho monarcas gargalham

Caiu a peruca de D. Stephan Antoine Riefensbach.

Desata espartilho, deixem-na respirar
E, com ela, todo o governo.