"Sabe o que é? Nunca procurei respostas. As perguntas, elas sim, me incomodam: ressoam, reverberam, ricocheteiam. É tipo um masoquismo da dúvida."

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Começa a saga cronometrada

Não faço ideia se tem alguém lendo meus posts. Mas hoje começa uma saga do desespero. As seleções de mestrado batem às portas, as leituras ficam para trás. Precisando reativar a memória, vou rabiscar umas espécies de resenhas/resumos do que já li. Transformando meu blog em um "porto-seguro" de informação um pouco mais sistematizada: tudo bem, leitor, se vc não se interessa por história cultural ou social.

Um espaço meio egoístico, este. Mas em breve volto a trazer coisas criadas por mim mas com finalidades não-egoístas.

Vou começar com o livro do Fernando Novais, tão propagado como um dos "revolucionários" historiadores pela geração USP, que "inaugurou" uma análise do processo de desmontagem do Sistema Colonial não apenas com os olhos intestinais e tradicionais dos intérpretes (sociólogos e economistas tributários de uma historiografia muitas vezes desenvolvida com alguns tons marxistas, como Caio Prado Júnior e Celso Furtado), mas trazendo a si certa posição de historiador "hard" (se é que assim podemos colocar), conferindo uma visão estruturante e globalizante do colapso do Antigo Regime e do próprio Sistema Colonial, pari passu.

Revolucionário ou não, o livro Portugal e Brasil na Crise do Antigo Sistema Colonial (1777-1808) lança mão da tese de que "a política (portuguesa) relativa à colônia ("brasileira") se manifesta como resposta aos problemas efetivos que a manutenção e a exploração do ultramar apresentavam à Metrópole" (p. 5). O fenômeno específico é o quadro de certo aparato mental dos dirigentes metropolitanos que, por meio de normas e ações, conduzem as transformações inseridas no quadro maior, de mudanças estruturais e colapso do Ancién Régime.

Capítulo I- Política de Neutralidade.

A expansão ultramarina e colonial é um processo inserido como elemento decisivo no jogo político das principais potências europeias, as quais buscavam sua hegemonia. Entender o surgimento de cada potência europeias significa estabelecer as preponderâncias sucessivas que é parte integrante do próprio processo de formação dos estados modernos.

Portugal e Espanha, superados por outras nações e colocados em condições secundárias no curso da modernidade, conseguem se manter relativamente autônomos e manter suas possessões coloniais. Portugal consegue manter seus domínios, atravessando a sucessão de crises e tensões, ao alinhavar-se à Inglaterra e constituir o Brasil como núcleo essencial da máquina colonialista. Inglaterra garantia a proteção se Portugal concedesse vantagens comerciais no mercado ultramarino. A preservação das colônias (e sobretudo das possessões na América Portuguesa) se torna condição de manutenção da própria existência de Portugal- é moeda de troca para as proteções e intervenções inglesas. Resumindo: Inglaterra protege as colônias e a metrópole para explorá-las em seguida. A ameaça vinha da Espanha bourbônica, apoiada na aliança com a França, que tinha planos de refazer a união ibérica. O autor diz que essa política portuguesa é de neutralidade (coisa com que não concordo)

A extensão e importãncia das colônias ibéricas só foi mantida graças à rivalidade entre Inglaterra e França, e a diferença entre posição política e econômica das metrópoles também. O evento que aponta a crise do Sistema Colonial mercantilista é a independência das colônias inglesas. A defasagem entre a posição econômica política e econômica das metrópoles é, por si só, elemento intrassistêmico que justifica a crise superveniente.

Capítulo II: A Crise do Antigo Sistema Colonial

Discute-se o sentido comercial da colonização moderna, os elementos caracterizadores do Antigo Regime: a centralização política, sociedade estamental, capitalismo comercial, expansão ultramarina e colonial são caracterizados, e suas decorrências (escravismo como tendência à primitiva acumulação de capital, consytituição de economias de subsistência voltadas a seu próprio consumo- daí a necessidade de se colonizar para o capitalismo - criando mecanismos em que se impunham as formas de trabalho compulsório). discutidas como fatores da montagem e organização do sistema colonial. Esses fatores desembocam na crise do colonialismo mercantilista, uma vez que a economia escravista e a produção para o capitalismo europeu solidificavam as bases sociais num binômio senhor-escravo: a linha de desenvolvimento econômico é a de complementar a economia central metropolitana. As colônias são o fator fundamental para a acumulação primitiva de capital das economias centrais. Além de ampliarem o mercado consumidor de produtos manufaturados, criando os pré-requisitos para a revolução industrial. A dinâmica do sistema, portanto, ao funcionar plenamente, vai criando ao mesmo tempo as condições de sua crise e superação. Nesse sentido, a competição das potências no Ultramar é furiosa, a Inglaterra conquista seu espaço hegemônico após a guerra dos Sete Anos e antes da independência dos Estados Unidos da América do Norte: fortalece seu exclusivo metropolitano com suas colônias, acentua a a penetração nas colônias ibéricas, através da metrópoles ou mesmo do contrabando. A ruptura do pacto, feita pela independência dos EUA, a possibilidade se torna realidade, as formas políticas republicanas acentuavam o quadro de crise não apenas do Sistema Colonial, mas de todo o Antigo Regime.   

A resenha continua.





quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Escravizar, conquistar, aniquilar: bem-vinda, brava gente!

Colando a postagem aqui que nunca sei o que pode acontecer com essas postagens por lá...

"...peço licença para uma breve digressão, nossa milícia senhor é diferente da regular que se observa em todo o mundo. Primeiramente nossas tropas com que imos [sic] à conquista do gentio brabo desse vastíssimo sertão, não é de gente matriculada nos livros de V.M. nem obrigada por soldo, nem por pão de munição; são umas agregações que fazemos alguns de nós, entrando cada um com os servos de armas que tem e juntos imos ao sertão deste continente não a cativar (como alguns hipocondríacos pretendem fazer crer a V.M.) senão adquirir o Tapuia gentio brabo e comedor de carne humana para o reduzir ao conhecimento da urbana humanidade, e humana sociedade à associação racional trato, para por esse meio chegarem a ter aquela luz de Deus e dos mistérios da fé católica que lhes basta para sua salvação (porque em vão trabalha, quem os quer fazer anjos, antes de os fazer homens) e desses assim adquiridos, e reduzidos, engrossamos nossas tropas, e com eles guerreamos a obstinados e renitentes a se reduzirem: e se ao depois nos servimos deles para as nossas lavouras, nenhuma injustiça lhes fazemos, pois tanto é para os sustentarmos a eles e a seus filhos como a nós e aos nossos: e isto bem longe de os cativar, antes se lhes faz um irremunerável serviço em os ensinar a saberem lavrar, plantar, colher e trabalhar para seu sustento, cousa que antes que os brancos lho ensinam, eles não sabem fazer: isto entendido, senhor?"

(Carta de Domingos Jorge Velho, dirigida ao Rei de Portugal, D. Pedro II de Bragança, na ocasião da destruição da resistência do quilombo dos Palmares. In : ROMEIRO, Adriana. Paulistas e emboabas no coração das minas. Ideias, práticas e imaginário político no século XVIII. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2008, p. 244.)

É curiosíssima a pretensão do homem de armas, a serviço da Coroa, no trato das gentes do sertão. Conforme se observa no trecho acima, as formas de dominação são atestadas pela obrigação ao trabalho compulsório nas lavouras e roças. Escravidão, sem tirar nem por. Por mais que fosse possível encontrar desargumentos ou injustificações da escravização indígena, com base no imaginário vigente à época, de uma vocação natural do negro africano ao trabalho e a consequente desvalorização (ou mesmo proibição ética e religiosa) de escravização dos gentios da terra, almas destinadas à salvação divina pela catequização, sua existência não pode ser negada.
Existira e precisava ser justificada. Se na América Espanhola o índio não fora feito escravo, mas submetido aos sistemas de trabalho compulsório em minas e plantations sob a vigilância de senhores encomenderos e capatazes, na América Portuguesa o indígena não terá a mesma sorte de uma sistema econômico propício a formas de dominação em rodízio de trabalho, como nas minas de prata de Potosí (dada a dispersão das tribos e dos agrupamentos aqui na Terrae brasilis). E por mais que o indígena submetido a tais tarefas fosse liberado após o período em que estivesse sob o jugo dos conquistadores, certamente seu retorno às origens não ocorreria nos mesmos termos.
O processo de conquista territorial e populacional na América Portuguesa proporcionava, portanto, uma gradual "inserção" dos cativos (sim, pois estão a ser dominados em cativeiro, em regimes de trabalho compulsório) à lógica do homem conquistador. Se a Igreja não se estendera em todo o território em missões de catequização, seu insucesso na empresa de completa conversão dos indígenas se observasse, o papel de inserção desse cativo ao "processo civilizador" (termo de péssimo gosto que menospreza o fato de civilização ser uma experiência de qualquer cultura humana) só seria possível pela lógica moderna da organização dos mundos do trabalho. O homem que trabalha, que se devota ao esforço diário de sua justificação, de sua fundamentação na ordem do mundo, marcado pela graça e pelo vínculo amoroso (conforme explicitamos no texto anterior), é o homem moderno. Fé passa a caminhar, de mãos dadas, com o trabalho no mundo moderno. Só a fé salva. Só o trabalho dignifica. Eis a lógica moderna, de lançamento dos alicerces mais sólidos (e ao mesmo tempo, mais assustadores) do capitalismo.

Caminhos do ouro, descaminhos da Justiça

Resolvi colar esta postagem de minha autoria aqui, já que nunca se sabe o que pode acontecer com um blog que não é seu.

Cada anno vem nas frotas quantidades de Portuguezes & de Estrangeiros, para passarem às Minas. Das Cidades, Villas, Reconcavos & Certoens do Brasil vão Brancos, Pardos, & Pretos, & muitos Indios de que os Paulistas se servem. A mistura he de toda a condição de Pessoas: Homens, & Mulheres: Moços, & Velhos: Pobres, & Ricos: Nobres & Plebeos: Seculares, & Clérigos: & Religiozos de diversos Institutos, muitos dos quaes nao tem no Brasil Convento, nem Casa.
Sobre esta Gente quanto ao temporal não houve atè o presente coacção, ou governo algum bem ordenado: & apenas se guardão algumas Leys, que pertencem às Datas, & Repartiçoens dos Ribeiros. No mais não há Ministros, nem Justiça que tratem, ou possão tratar dos castigos dos Crimes que nao sao poucos, principalmente dos homicidos & furtos."
IN: ANTONIL, André João. Cultura e opulencia do Brasil por suas Drogas e Minas ...Lisboa: Na Officina Real Dislandianesa, 1711, pp. 136-137.

A situação apresentada por Antonil é a que precedeu a separação da Capitania de Minas Gerais da de São Paulo, fato ocorrido em 1720. O interesse metropolitano somente se justificou no momento em que as Datas auríferas haviam sido devidamente estabelecidas, e as revoltas pela posse das minas, quais sejam, a Guerra dos Emboabas e a Revolta de Felipe dos Santos, efetivamente deflagradas e contidas.
Um novo pedaço da América Portuguesa se estabelecia com a ocupação de um imenso território adentro, com promessas enormes e desafios ainda maiores à dinastia de Bragança, que se via pressionada pela política de alinhamentos europeia (a Casa de Bourbon conquistando espaço junto à Espanha, intimamente ligada à França enquanto Portugal, diante da perda de territórios como de Sacramento e da anuência com as ocupações espanholas na Amazônia, articulou - ou selou- seu enredamento com a Inglaterra). O fluxo de imigrantes, esperançados pela promessa de riquezas, empurrava ainda mais a Coroa a agir na Colônia com braços fortes, até então não vistos cá nos trópicos, estruturando uma administração que não somente fosse capaz de fiscalizar, impedindo o contrabando, mas sobretudo de punir, evitando sedições e garantindo a "justiça", a "ordem", "a paz".
Esgoelavam-se os prometidos do ouro, revigorava-se mais um dos muitos capítulos da história da escravidão, num inagurado ciclo econômico, reproduzia-se um (ainda que relativamente tímido) ritmo de vida inédito, o urbano, estruturavam-se sociabilidades completamente novas. Eram os muitos homens de toda procedência, em busca de afirmarem sua existência na lógica da dádiva e da conquista.
A quem prestava o Direito, a quem era feita a Justiça, senão aos que nesta terra tudo queriam, tudo sonhavam e nada temiam? Para quem serviam as Leis? Tudo novo, nada novo...Estável lógica, essa da história da riqueza humana.
Engraçado como as decisões nos entorpecem, tragam, revolvem as partículas desse "eu" tão perdido, o sujeito desconhecido, pisoteado, retorcido, esfumaçado pelo convívio. Não, não sou fruto do meio. Mas sou um enxerto nele.

Quisera acreditar em escolhas puramente racionais, meticulosas, calculadas. Elas só são tomadas porque o têm de ser. Inevitável é escolher.

Remeto ao interessante trabalho de Natalie Zemon Davis, com o qual estou tendo contato nesses últimos dias, Culturas do povo. Os Griffarins da França quinhentista, homens operadores de máquinas de prensa gráfica, a revolucionária- ou nem tanto - engenhoca de Johannes Gutenberg, poderiam ser apenas frutos de seu meio: liam, ainda que o básico, para operar caracteres gráficos. Homens abertos à inovação técnica, abertos às investidas sedutoras do ascendente protestantismo. A máquina que operavam, operava mudanças em suas visões de mundo: por um lado, alguns se vendiam ao preço de banana, os chamados Forfants, para executar semelhante serviço. A desigualdade é certamente fruto da necessidade econômica, mas as duas estão a se interpor a todo instante. Não necessitassem de qualquer vintém, não estariam os Forfants a vender sua mão-de-obra a preço tão baixo. Não necessitassem as instituições de expedir papéis e comunicar-se em impressos tão velozes, não precisariam de Forfants. A lógica capitalista depende dessa mola da técnica: inventar a necessidade é inventar a desigualdade. Quem puder pagar pela necessidade criada está investindo na possibilidade futura de novas necessidades serem inventadas. E quem não puder pagar, que arrume uma maneira para manter sua própria existência. Não se vende mão-de-obra, se atropelam potencialidades não desenvolvidas. A lógica é simples. Qualquer "outra" necessidade, que não a mais primordial do homem, é fruto do desenvolvimento tecnológico. Realizá-la depende de novos investimentos, ou de atropelar a própria potencialidade, operando a máquina, a preço módico.

É o início da desigualdade na civilização industrial. Escolher entre as Companhias criadas com o fim da sociabilidade e cooperação enre seus membros, ou a possibilidade das novas sociabilidades de certo tentador progressimo protestante? Não há escolha. O projeto da Igreja Católica venceu em Lyon, junto aos agentes da comunicação impressa, aproveitando-se da polarização do conflito entre Griffarins e Forfants. A pergunta é a mesma: escolheram? Racionalmente?

As demonstrações da autora sugerem bastante que não.

quarta-feira, 21 de julho de 2010



Esperaram muito tempo, ocupações sem fim, desordens do tamanho do Belvedere, abrutalhamentos urbanos da ordem do Buritis, para finalmente ser aprovada nova lei de parcelamento, ocupação e uso dos solos urbanos de Belo Horizonte. Diminuem o tamanho das edificações, acirra-se a fiscalização sobre obras, regulamentam-se as dimensões de áreas livres e varandas. Alturas de prédios em alguns bairros passam a ser limitadas também.


Antes constatar as ilhas de calor, a excessiva especulação imobiliária, o crescimento vetorizado -ou setorizado- e a extrema desigualdade e concentração da ocupação urbana.

E ainda há o problema da Granja Werneck, sobre a qual querem construir a Vila da Copa. Em área quilombola.

É aqui que eu moro, e muitas vezes me pergunto: é aqui que eu quero ficar?

terça-feira, 20 de julho de 2010

Bodas

E eis que me volto às voltas mais voltaicas da vida. As escolhas vem e vao, as palavras pesam, as promessas despencam, a carruagem anda. Estava lá a criatura ingênua, a preencher a primeira ficha de inscricao para o Vestibular da UFMG. Faria como treineiro, para testar seus conhecimentos, para o ano seguinte. Estava certo, desde seus quinze anos, de que cursaria Direito. O curso dos diplomatas, dos advogados, dos homens engravatados, que falam bonito e ganham dinheiro. Nao tinha visto curso cujo curso fosse tao histórico, em movimentos crescentes de conquistas: levantavam vozes em Paris, acirravam-se lutas em Havana, e olha só, discursavam os senadores romanos. Uma imagem poética, discursiva, ideal.

Assinalou História, foi aprovado, acreditou ser simples entao passar no ano seguinte para Direito. Foi o que fez. Comecou com paixao, terminou com ressalvas. Muitas. Descobertas e acertos. E preferências.

E viu-se voltando à História...Ela voltando nele. Dando choques de água fria. Absorvido pela sensacao de entender os homens, já que as leis deles pouco dizem. Precisava ouvir o mundo pela boca dele mesmo. E vê-lo em seu curso. Conflituoso, nao apaziguado.

Casei-me com Clio. 

De-banda

Estava à toa na vida, 

Nenhum amor me chamou

Chamei pra ver se respondia.

Veio quem eu menos queria,

Esperei mais um tempo.

Nao sei se isso adiantou.

Olhei, frêmito, afoito: o presente era eu. O futuro era o amor, 

O passado, a ilusao.

Esqueci de meu tempo, abri o caderno, esperei recordar o irrecordável: que viessem as lembrancas.

Imaginei situacoes. Lugares, prazeres, fogaréus fátuos. Tensoes superficiais.

Cruzava olhares, horizontes, dados.

Me perdi. Sem nunca ter me achado.


terça-feira, 6 de julho de 2010

Relatos de cidade crua

Nao preciso ir longe, a nenhuma metrópole de filme de gângsters, nem mesmo ao Rio de Janeiro do frissom midiático. Violência bate na cara, pode ter sido só um arranhao, leve tapa. A dor pode ser graduada. Objetivamente, fui espectador. Poderia ser vítima.

Cena 01. Chegamos eu e mais três amigos num bar, ali na Serra. Um deles diz à motorista do carro se nao preferiria pará-lo mais à frente. Achara o lugar estacionado muito escuro. Eu, ingênuo, disse, bobagem, estamos próximos do bar e do movimento. Nao há perigo.

Pois havia. Saímos eu e a motorista, mais cedo, e indo pegar os pertences dos colegas. Passamos por um carro cujo vidro lateral estava com um senhor rombo. Um buraco grotesco, certo frio e silêncio incomodante. Sucederam-se gritos, coisa como gente, ali, pega ladrao, pega ladrao, repetidas vezes, cada vez em tom mais alto. Luzes vermelhas tremulavam, irradiadas entre folhas de trepadeiras de muro. Vi um homem pisando em outro, na íngreme calcada de concreto da ladeira. E ouvi gritos contínuos. Arrancamos o carro. Gelo interior. Abracamo-nos.

Cena 02. Sábado, oito da noite. Ia ao concerto de piano da graduacao de um amigo. Coincidentemente encontrei uma amiga no ônibus, 2004, que também ia ao concerto. Conversávamos sobre trivialidades quaisqueres, receitas da TV ônibus, racismo e apartheid, colonizacao holandesa na África do Sul. Entrou uma voz esganicada, confusa, a berralhar coisas ininteligíveis no ônibus. Pensamos em louco, drogado, algo mais corriqueiro. Nao era. Avancou a catraca, e pos à mostra sua arma de fogo na cintura. Havia um segundo, a auxiliar a coleta dos pertences. Exigiu celular e dinheiro. Eu, apenas com meu pobre celular Nokia q comprei em 2007, com o dinheiro da primeira bolsa de pesquisa que obtive. Nem tirei do bolso, nao tinha prestado atencao na exigência do celular. E doze reais. Os homens ignoraram tamanha pobreza, arrancaram os 50 reais da mao de minha amiga. Um pai em desespero agrrou sua filha. Desceu do ônibus. Havia desobedecido a ordem dos assaltantes. Desceram e permaneceram apontando a arma aos dois acuados. O ônibus seguiu. Muita raiva, irascíveis alguns passageiros, outros chocados. Ouvi um: "a gente trabalha sábado até essa hora pra merecer isso?" Murros na parede do ônibus. Choros e solucos. Pedia que parasse. Dois pontos depois parou. Gritaram à viatura, estacionada diante do Colégio Militar, para que pegasse os homens. Foram. Vacilantes. 

Descemos do ônibus. Muitos foram prestar a ocorrência. Disse a minha amiga que recuperar aquele dinheiro seria quase impossível. Quantos ônibus passam pela Antônio Carlos por minuto? Pegamos um até o final de nosso destino, a UFMG. Os autores do crime, provavelmente, outro, com outro destino, para bem longe dali. 

Me senti completamente espectador, atordoado, sem queda de qualquer ficha.

Prefiro nao acreditar em converseiro fiado. Violência está aí, para qualquer um que a presencie. Ou infelizmente a sofra. Seguranca pública, nem tanto. Saber que se está seguro no meio social é muito mais difícil que saber que nao se está. As possibilidades sao inúmeras, os fatores, complexos, os agentes, diversos. 

Comunitarismo fraquejado

Este momento em que escrevo é pernicioso. Produz inversões sem fim. Estabelece não eixos, mas rupturas em quaisquer possibilidades de alinhamentos: estamos diante de uma bobajada chamada comunitarismo - isso mesmo, uma espécie de desfibrilamento cardíaco do curso tradicional que o capitalismo de matriz liberal produziu.

O indivíduo cercado em sua individualidade, seu potencial para o consumo e para as atividades que marquem sua "importância singular" : lógica de identidade construída por uma subjetização da objetividade, degringola a cada passo da civilização pós-industrial. 

Subjetivização da objetividade é, nesses termos, o resultado esperado da complexa teia social: alguém é o que objetivamente pode ser. Num materialismo que dispensa qualquer referência a autores, o que se observa é que os dados da existência humana são aqueles que objetivamente compõem o traço da especificidade, da singularidade, da composição desse "eu", tão abstrato, de cada um: com quem sai, que lugares freqüenta, onde trabalha, qual é sua formação, que faz durante seu dia-a-dia, quantos reais possui em sua conta bancária, que música ouve, que comida come, que livros lê, que filmes assiste.

Tudo isso se estabelece por condições materiais, certo. Mas esse mesmo indivíduo, que depositava confiança em sua inextricável liberdade, perde toda sua orientação na aniquilação diária que a mesma sociedade de massas inventou: convivem sofrimentos, fomes, pestilências, insalubridades, catástrofes em territórios esfrangalhados pelo colonialismo, pelo neocolonialismo, pela permanência atroz de estruturas de subordinação e misérias sem fim.

Resolver tais problemas não parece solução, tampouco prioridade. A lógica maior é a de respeito alimentado como um gordo novilho cevado, a toda e qualquer diferença, sem, no entanto, que ela nos chegue a incomodar. Estou falando de um discurso perverso, como esses de alguns países europeus, que querem ter no Brasil exemplo de tolerância à diferença, que acreditam que coabitar uma cidade com milhares de barracões e algumas torres de luxo é exemplo de cultura comunitária, de paz e boa convivência. Cultura que esbofeteia todos os dias nossas caras, com uma violência explícita e ácida.

Se há que se falar em comunidade, comum + unidade, ela tem que existir nas condições mais simples, imediatas, materiais, que contribuam não à formação da subjetividade, da individualidade (e de indivíduos que se acham integrados de alguma forma que ninguém sabe qual é), mas acima de tudo, de sua composição social, de sua efetiva integração a um corpo assim chamado de comunidade.




Políticas para a indústria brasileira: cadê?



Os números do IBGE divulgados recentemente apontam uma desaceleração da produção industrial do Estado de São Paulo. Responsável pela maior parte da produção industrial do país, o estado desacompanha o ritmo de ligeiro crescimento do indicador PIA do país.

Sim, é verdade que a produção industrial indica o fator mais importante de uma economia, e não estou me filiando a nenhuma corrente de pensamento econômico: produção industrial demanda serviços, e matérias -primas, o que por óbvio fomenta as atividades do setor terciário e primário. É o verdadeiro coração de uma economia, na lógica mais simples que há a se fazer.

E, obviamente, depende de políticas que incentivem tais atividades: planejamento tributário, infraestrutura de transportes, energia, etc. O que me incomoda é: planos para o fomento da atividade industrial desconcentrados do polo sudeste ainda não existem. PAC, ou qualquer outro ainda são palavras frouxas, sem uma efetividade que salte aos olhos. Vejamos os discursos dos candidatos à Presidência nesse sentido. Aguardo com certa ânsia.