Estou num momento bete balanço. Dor e grana parecem próximos. Basta seguir a estrela, um brinquedo de "star". Afinal, nada aqui se é. Se está. Um brinquedo de estar. Brincamos sempre de estarmos algo.
Se o futuro é duvidoso, necessário é vir com tudo. Pois estes, nunca cansam. São verdadeiros Sísifos.
O vídeo da canção: http://www.youtube.com/watch?v=Wpwoi7EtW4w&feature=player_embedded
"Sabe o que é? Nunca procurei respostas. As perguntas, elas sim, me incomodam: ressoam, reverberam, ricocheteiam. É tipo um masoquismo da dúvida."
terça-feira, 6 de julho de 2010
Indignado mesmo!
O post só cumpre uma utilidade pública: O sítio do Arquivo Público Mineiro está desativado por motivos de uma relevância esdrúxula. Informa o site que “Este site está desativado em função da legislação eleitoral até que o Tribunal Regional Eleitoral (TRE) oficialize o término das eleições”.
Mais uma vez, está-se diante da confusão entre serviço institucional e propaganda antecipada. Tudo porque o candidato tucano Antônio Anastasia foi multado em 5 mil reais pelo Tribunal Regional Eleitoral de Minas Gerais por estar fazendo propaganda antecipada, ao conceder entrevista ao síte Agência Minas, vinculado ao Governo, segundo li no Estado de Minas.
Governo se difere de Estado, já cansamos de saber. Que cargas d'água de propaganda antecipada o site do Arquivo Público Mineiro poderia fazer? Anunciar suas obras de ampliação? Bom senso nessas horas deve sempre falar mais alto, em especial a um candidato da situação. Impedir um serviço prestado pelo arquivo (consulta à documentação digitalizada) é que não.
quarta-feira, 30 de junho de 2010
Enrubrecimento
Teresa nao podia esperar. Eram anos convivendo com sua asma renitente, sua magreza ínfima, aquelas olheiras profundas. Sua origem nao era conhecida: tia Doca, mais que matrona, era a mae perversa de Teresa. Nao tinha mais ninguém que nao aquela velha obesa, a resmungar sobre o preco das carnes, entre um cigarro e outro que acendia e sufocava a pobre moca.
Morava ali, naquele barracao sem divisórias, misto confuso de panelas, caes, fogao e cama. Rangiam os vizinhos vez ou outra seus recorrecos e assobios, em rodas de samba das quais Teresa nunca quis saber de participar. Era uma alegria da qual nao podia compartilhar. Até aquele dia. Nao podia esperar.
Meteu na bolsa os poucos dinheiros que ganhava como servicos gerais, e foi à Quinze de Marco naquela manha de sábado. Calor. Formigueiro humano. Pisadas. Pocas d'água. Pastel. Fumaca. Choros de criancas. Berros. Imundície.
Nao importava. Em terra onde nao há carne, urubu é frango. Comprou um vestido, resgatou qualquer resto de autoconfianca, pos um batom do mais vulgar e um ruge na cara, e se estendeu até o anoitecer, naquele vaivém frenético. Hora em que simplesmente foi ao cinema.
Era um filme antigo, com Bette Davis. Se reconhecera naqueles olhos, idênticos aos seus quando marejavam.
Nunca se pode esperar.
sexta-feira, 25 de junho de 2010
Meu último sonho
Curioso. Discuto a imagem dos psitacídeos em minha mente. Tem o estigma do deboche, da irreverência, da contestacao. Meu periquito, foi com ele que sonhei.
Estava lá dentro de sua gaiola, sempre nervoso, gritalhando seus sons sem melodia alguma. No sonho, meu pai achava que os jovens canários estavam muitos sozinhos em suas gaiolas. Precisavam de companhia. Foi quando teve a brilhante ideia de tranferi-los de suas pequenas jaulas para a do periquito.
E por algum motivo mágico, depois desse fato, passei a entender o que falavam os pássaros. Dizia o periquito:
-Vocês canários sao muito idiotas. Vivem a cantar, cantar e cantar, enquanto eu denuncio toda a opressao e as mazelas do mundo. Um mundo que reproduz pássaros para mantê-los presos é, no mínimo, injusto. E vivemos aqui, à base desse alpiste ruim. Dieta variada nos é inexistente.
E continuou a denunciar sua insatisfacao com a condicao de vida dos pássaros. Os canários pareciam nao dar muito os ouvidos. Completou:
- Vocês tem esse bico mole e curto, que só lhes serve para cantarolar. Eu pelo menos tenho um bico duro e pernas fortes, e com eles, posso abrir a porta da gaiola, mas nao consigo dela sair, por ela se fechar bem em cima de mim. Mas posso auxiliá-los a sair, para que conquistem o mundo.
Dei as costas a esse converseiro passaral. Pensei comigo, quanta bobagem! Decorrido certo tempo (imposivel de se medir na longueza de um sonho - pode ter sido uma hora ou um lapso de segundo!), voltei-me à gaiola e vi apenas o periquito lá dentro, ainda reclamando. Seus companheiros haviam ido embora, para conquistar o mundo.
sexta-feira, 4 de junho de 2010
Assim, congelado. Nada de assado.
"-Avante, cavaleiros! A derrocada dos ídolos fajutos está próxima. Vamos executar nossas conquistas sem piedade. Pilhem, destruam, matem, estuprem. Ganhem a glória. O descanso eterno será de vocês!
-Senhor, nao consegue ver? Estao todos congelados...
-Brrrr..."
-Senhor, nao consegue ver? Estao todos congelados...
-Brrrr..."
Óia a Onca!
Hoje me agucou a curiosidade uma notícia veiculada na Folha de Sao Paulo. Confundir a esposa com uma onca nao é algo de todo incomum. Meu tio mesmo apelida carinhosamente sua mulher de Dona Onca.
Trágica a história, mas num nível de patetice absurda. Error in persona é uma das causas de exclusao de culpabilidade. Diz a legislacao penal que deverao ser levadas em conta as características da vítima virtual. Mas no caso em tela a vítima virtual (a onca) nao é pessoa, ainda que subsistisse o dolo do marido em matar um jaguar selvagem. Nao é possível se falar em error in persona.
Fico pensando sobre a legítima defesa, a ser provavelmente levantada no caso: a mata, a pescaria, o ambiente hostil dos sertoes brasileiros.
"Art. 25 - Entende-se em legítima defesa quem, usando moderadamente dos meios necessários, repele injusta agressão, atual ou iminente, a direito seu ou de outrem"
Ainda que crente de repelir agressao injusta iminente ao seu direito à vida ou integridade corpórea, sempre as más línguas vao dizer: era uma onca aquela mulher. (Mas vamos combinar, confundir a mulher com um animal quadrúpede, em plena luz do meio-dia é um bocado estranho). Eis aí a notícia:
sábado, 29 de maio de 2010
I-Mensa
Entre um purê de batata, um arroz, e umas colheradas grudentas de suflê, alguns olhares trocavam. Uma bandeja, um redor amplo, vozes, restaurante universitário. Diziam. Olhavam-se uma conversa de atenções recíprocas:
-Sabe, nunca entendi isso de saudade. Acho que é insatisfação com o presente. Que parece cada vez mais demorar a passar. Ao final, envelhecemos e nos tornamos velhos saudosistas, jogando damas na praça.
-Você sabe que se a vida passa, a culpa é de quem vive. Mesmo que insatisfeito com o presente. As pessoas passam, as coisas perecem, a matéria é destruída, transformada ou qualquer baboseira que Lavoisier tenha dito. Mas a lembrança, essa permanece.
-Queria não viver delas. Acho que me iludo às vezes.
- Se está iludido, é porque vive. Outra coisa não poderia fazer nesse jogo, em que pelo menos termina algum dia. E sem vencedores ou perdedores que não um só. Diariamente.
-Te amo.
-Sabe, nunca entendi isso de saudade. Acho que é insatisfação com o presente. Que parece cada vez mais demorar a passar. Ao final, envelhecemos e nos tornamos velhos saudosistas, jogando damas na praça.
-Você sabe que se a vida passa, a culpa é de quem vive. Mesmo que insatisfeito com o presente. As pessoas passam, as coisas perecem, a matéria é destruída, transformada ou qualquer baboseira que Lavoisier tenha dito. Mas a lembrança, essa permanece.
-Queria não viver delas. Acho que me iludo às vezes.
- Se está iludido, é porque vive. Outra coisa não poderia fazer nesse jogo, em que pelo menos termina algum dia. E sem vencedores ou perdedores que não um só. Diariamente.
-Te amo.
Cotas raciais em audiência.
"Todos nós sabemos que a África subsaariana forneceu escravos para o mundo antigo, para o mundo islâmico, para a Europa e para a América. Lamentavelmente. Não deveriam ter chegado aqui na condição de escravos. Mas chegaram. (...) Até o princípio do século 20, o escravo era o principal item de exportação da pauta econômica africana."
"Nós temos uma história tão bonita de miscigenação... [Fala-se que] as negras foram estupradas no Brasil. [Fala-se que] a miscigenação deu-se no Brasil pelo estupro. [Fala-se que] foi algo forçado. Gilberto Freyre, que é hoje renegado, mostra que isso se deu de forma muito mais consensual."
Lamentavelmente, o Senador parece levar em conta certas interpretações distorcidas, anamórficas sobre a formação social brasileira. Uma delas é essa insistência em bater na tecla da tese de Gilberto Freyre, como se a escravidão no Brasil tivesse sido algo leve, menos violento, mais ameno. Sabe-se muito bem que a implantação do regime de escravidão encontrou largas condições de desenvolvimento na economia atlântica, além de buscar caminhos e descaminhos para a acumulação do capital pelas classes mercantis dirigentes.
Temos que tomar muito cuidado com algumas análises. Não podemos observar o fenômeno do tráfico negreiro como se ele fosse um arranjo ou um instituto inerente às sociedades tribais subsaarianas, e tão somente, menosprezando a formação do sistema escravista colonial pela participação de outros agentes.
O sistema escravista colonial reproduziu diferentes interessados diretamente no tráfico: "brasileiros"(colonos), "angolanos" (colonos), portugueses reinóis, líderes tribais. Toda a rede de relações está criada em torno de um sistema que acachapa a organização dessas sociedades africanas (o número estimado de escravos arrancados de sua terra para o Brasil chega à cifra dos 06 milhões, do período colonial ao Império) para servir à formação de um capital primitivo, que alimenta as formas de produção mercantil e garante a subsistência de toda a exploração colonial.
Almas são o grande negócio dos homens.
É tragicômico procurar identificar responsáveis históricos, culpados primordiais, num processo multifacetado, fragmentado, irregular. Se a desigualdade existe, patente, evidente, a culpa é presente, é pela inamovibilidade, pela omissão de nossas instituições públicas.
Outra perspectiva, levantada pelo Ilmo Senador da República, é a de que tenha sido fundada a mestiçagem brasileira como um gradual balanceamento das distinções, ou melhor dizendo, abismos entre a elite branca intelectualizada detentora dos meios de produção (restrita a números pífios) e os pretos escravos. Tal é de uma saliente ignorância.
As condições materiais de desenvolvimento social só foram dadas num momento de exclusão que passava por núcleos distintos: a família mestiça somente se tornará parte efetiva de nossas instituições sociais com a edição de leis de libertação dos escravos, e ainda assim de modo bastante tímido. Família, resguardando seus direitos e interesses, no sentido mais tradicional e conservador que possa ter (com pai, mãe, crianças, missa e educação) é branca e rica em toda a história colonial. É desse cuidado que a história social deve se cercar: os dados documentais em geral são escritos por aqueles que detem uma posição social bem definida, sólida, e revestida de meios que permitam o registro: instrução, ou condições de financiar aquelçes que procedam ao registro. Não preenchem o conteúdo de arquivos da história colonial brasileira famílias de negros, e mal são descritas as condições de homens brancos ricos que tenham se casado com negras. Em geral, as proles são geradas junto à senzala, criadas no meio doméstico os filhos bastardos são quando, muito, e de modo muito tangencial, inseridos em partilhas/inventários.
O que pretendo dizer é que as mães solteiras, as proles bastardas, o mestiço, são todos cernes da construção da população nacional; potanto, há zonas muito insólitas que compreendem círculos de omissão e abandono da integração social e preservação de direitos. É extremamente ingênuo acreditar que a reprodução, o crescimento populacional de seres humanos tenha de ocorrer no âmbito da família, ainda que certos valores da época, tomados por "dominantes" (de fato, são valores contidos nos documentos, representam um conteúdo moral e cultural de camadas sociais dirigentes) reafirmem tal posição.
Conclusão inarredável, constatado o dado da mestiçagem brasileira, é a de que tal não deve ser tida como um processo homogêneo, gradual, bem formado, calcado em uniões não violentas, que desprezasssem a violência no âmbito doméstico, a exploração sexual, o estupro, e outras tantas formas de dominação e subjugação ainda presentes em nossos tempos.
E torna-se objetivo o problema de que mestiços também estão alijados do processo de integração social e racial. A mestiçagem não é, nem pode ser tomada como fundamento do apaziguamento das desigualdades, como pretendeu Freyre. Não é a mestiçagem, em suas gradações, responsável por qualquer diminuição do abismo que distanciam o preto reduzido à condição de escravo do branco proprietário de terras. As desigualdades são objetivas, os encontros, desencontros e formação social são multifacetados. E as desigualdades, inicialmente materiais e raciais, permanecem materiais diante do espetáculo das raças.
Entomologia
Sua face era rija. Seus óculos, circularmente convexos e de armação crua. Daqueles tempos em que pentes e tartarugas se associavam nas nefandas invencionices da moda, unitilmente relegada ao perecimento da matéria no tempo. Carcomera sua pele, marcada por rugas fugidias ao redor dos olhos e da boca. Aquela boca, cinza, de lábios miúdos e sem propósito, articulava palavras com precisão quase germânica. Ressibilavam, soltas, até a sobrancelha. Nada mais. Ficavam presas naquele ser limitado por sua própria condição. E perdiam-se na austera sombra acima dos olhos. Quando muito, escapuliam, descendo ao tailleur marrom surrado e metido junto a uma saia bege. Bege! Por que alguém lança mão de um tom que o faz destoar? Evanescera. Apagara-se. Tudo naquele ser tributava mofo. Naftalina. Passado. Irrelevância. Negação. Obsolecência.
Um meio-tempo, daqueles em que se deposita a crença de exercício de uma atividade, crescimento, busca, esmero! Quá, quá, quá. Qual nada! Meio-tempo é coisa para os tolos da repartição pública, cafezinho, destravamento social. A figura dos óculos convexos carregava sua corpulência sem qualquer presença. Enganava-se, hiperbólica, na exigência de relatórios e conclusões, produções e técnicas, gestos milhões, braços, pernadas, apontamentos. Os olhos enormizados pela convexidade não poderiam devorar nada mais que sua própria parvidez. Es-drú-xu-la. Feito uma mariposa.
Não havia percebido, pobrezinha. Não se tratava de casulo. Não melhoraria. Não sairia desse invólucro. Estava diante de uma armadilha. Uma rede. Aracnídea.
segunda-feira, 26 de abril de 2010
Rapidinha
Estou sem postar há tanto tempo que me sinto até envergonhado de fazê-lo.
Mas seja feito. Gostaria de comentar dois shows muito bons a que fui, Placebo (dia 16 de abril deste ano) e Tanghetto (ontem, 25 de abril, encerramento do Conexao Vivo).
O primeiro resgata o universo meio esvaído da adolescência, dos bons momentos de descoberta de socialidades, edificacao de identidades, sei lá, rock 'n' roll mesmo, ritmado pelo compasso da civilizacao industrial dos excessos.
Brian Molko escalda sua voz e aparência andróginas na atmosfera plástica das vendas, do produto, do sujeito esmagado pelas dissensoes destes tempos. "Uma bola de confusao", mesma que sinto ser, auto-designacao do próprio Brian, em entrevista. Valeu a pena, fora a performance excelente da banda e de sua nova integrante, os efeitos visuais do fundo: portos, cidades, bonequinhas masoquistas dignas de Tim Burton. Industrializou um rock brit-pop indie que dispensa quaisquer rótulos.
E, ontem, na Praca da Liberdade, os contrastes de palmeiras e amenidades de fim de tarde de outono, e toda a postura do tango, regada pelas velocidades da música eletrônica. O silêncio sempre foi meu amigo. E lá, continuou sendo. Sempre curti.
Assinar:
Postagens (Atom)
